terça-feira, 21 de agosto de 2012

Ho Chi Min


“Há ainda uma coisa estranha nesse mundo,
as pessoas correm para prender suas pernas em grilhões.
Uma vez acorrentadas, podem dormir em paz.
De outra maneira elas não teriam onde descansar a cabeça.”

Paulo Mendes Campos - Filho

"Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe e mais puro, e ajude a redimi-lo".


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Raduan Nassar - Lavoura Arcaica

"O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo
que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus
caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos
afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a
razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos
instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o
curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de
fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai
daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será
consumido por suas águas; ai daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre
a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas, que
toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que
insinuada; o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre cioso
da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do concerto
menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e
presente também, com seus instantes, em cada letra desta minha
história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa
manhã cheia de luz, armando desde cedo o cenário para celebrar a
minha páscoa, retocando, arteiro e lúdico, a paisagem rústica lá de
casa, perfumando nossas campinas ainda úmidas, carregando as cores
de nossas flores, traçando com engenho as linhas do seu teorema,
atraindo, debaixo de uma enorme peneira azul, muitas pombas em
revoada, trazendo desde as primeiras horas para a fazenda nossos
vizinhos e as famílias inteiras de nossos parentes e amigos lá da vila,
entre eles divertidos tagarelas e crianças muito traquinas, tecendo
agitações frívolas e ruídos muito propícios, Zuleika e Huda, ajudadas
por amigas, já transportavam contentes garrafões de vinho, correndo
sucessivas vezes todos os copos, despejando risonhas o sangue
decantado e generoso em todos os corpos, recebido sempre com
saudações efusivas que eram prenuncio de uma gorda alegria, e foi no
bosque atrás da casa, debaixo das árvores mais altas que compunham
com o sol o jogo alegre e suave de sombra e luz, depois que o cheiro
da carne assada já tinha se perdido entre as muitas folhas das árvores
mais copadas, foi então que se recolheu a toalha antes estendida por
cima da relva calma, e eu pude acompanhar assim recolhido junto a
um tronco mais distante os preparativos agitados para a dança, os
movimentos irrequietos daquele bando de moços e moças, entre eles
minhas irmãs com seu jeito de camponesas, nos seus vestidos claros e
leves, cheias de promessas de amor suspensas na pureza de um amor
maior, correndo com graça, cobrindo o bosque de risos, deslocando as
cestas de frutas para o lugar onde antes se estendia a toalha, os melões
e as melancias partidas aos gritos da alegria, as uvas e as laranjas
colhidas dos pomares e nessas cestas com todo o viço bem dispostas
sugerindo no centro do espaço o mote para a dança, e era sublime essa
alegria com o sol descendo espremido entre as folhas e os galhos, se
derramando às vezes na sombra calma através de um facho poroso de
luz divina que reverberava intensamente naqueles rostos úmidos, e foi
então a roda dos homens se formando primeiro, meu pai de mangas
arregaçadas arrebanhando os mais jovens, todos eles se dando rijo os
braços, cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro,
compondo ao redor das frutas o contorno sólido de um círculo como
se fosse o contorno destacado e forte da roda de um carro de boi, e
logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância,
puxou do bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e
se pôs então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se
inflando como as bochechas de uma criança, e elas inflavam tanto,
tanto, e ele sangüíneo dava a impressão de que faria jorrar pelas
orelhas, feito torneiras, todo o seu vinho, e ao som da flauta a roda
começou, quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro num
sentido, depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força num
vaivém duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos
virilmente contra o chão, até que a flauta voou de repente, cortando
encantada o bosque, correndo na floração do capim e varando os
pastos, e a roda então vibrante acelerou o movimento circunscrevendo
todo o círculo, e já não era mais a roda de um carro de boi, antes a
roda grande de um moinho girando célere num sentido e ao toque da
flauta que reapanhava desvoltando sobre seu eixo, e os mais velhos
que presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua vez, todos
eles batiam palmas reforçando o novo ritmo, e quando menos se
esperava, Ana (que todos julgavam sempre na capela) surgiu
impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas,
ligeiramente apanhados num dos lados por um coalho de sangue (que
assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um deboche
exuberante, uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de
carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o
pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos
seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos
tornozelos, foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias
mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando
com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com
segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os
olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os
gestos por um instante, mas dominando a todos com seu violento
ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar, apesar da graxa que me
escureceu subitamente os olhos, seus passos precisos de cigana se
deslocando no meio da roda, desenvolvendo com destreza gestos
curvos entre as frutas e as flores dos cestos, só tocando a terra na
ponta dos pés descalços, os braços erguidos acima da cabeça
serpenteando lentamente ao trinado da flauta mais lento, mais
ondulante, as mãos graciosas girando no alto, toda ela cheia de uma
selvagem elegância, seus dedos canoros estalando como se fossem,
estava ali a origem das castanholas, e em torno dela a roda passou a
girar cada vez mais veloz, mais delirante, as palmas de fora mais
quentes e mais fortes, e mais intempestiva, e magnetizando a todos,
ela roubou de repente o lenço branco do bolso de um dos moços,
desfraldando-o com a mão erguida acima da cabeça enquanto
serpenteava o corpo, ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã,
esconder primeiro bem escondido sob a língua sua peçonha e logo
morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva
enquanto dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta,
tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação, e logo entoados
em língua estranha começaram a se elevar os versos simples, quase
um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um primo menor e mais
gaiato, levado na corrente, pegou duas tampas de panelas fazendo os
pratos estridentes, e ao som contagiante parecia que as garças e os
marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a todos ali no
bosque, e Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo
lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais
versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando
sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado
retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a
voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era
a comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia
surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a
sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me
atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e
antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas
de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se
procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa
busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre
nos meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca,
de que era para mim, e só para mim, que ela dançava (que reviravoltas
o tempo dava! que osso, que espinho virulento, que glória para o meu
corpo!), e eu, sentado onde estava sobre uma raiz exposta, num canto
do bosque mais sombrio, eu deixei que o vento que corria entre as
árvores me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha
fronte eu sentia a carícia livre dos meus cabelos, e nessa postura
aparentemente descontraída fiquei imaginando de longe a pele fresca
do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de
meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares
não se continham, eu desamarrei os sapatos, tirei as meias e com os
pés brancos e limpos fui afastando as folhas secas e alcançando abaixo
delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida era de
cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à
superfície e me cobrir inteiro de terra úmida, e eu nessa senda oculta
mal percebi de início o que se passava, notei confusa-mente Pedro,
sempre taciturno até ali, buscando agora por todos os lados com os
olhos alucinados, descrevendo passos cegos entre o povo imantado
daquele mercado — a flauta desvairava freneticamente, a serpente
desvairava no próprio ventre, e eu de. pé vi meu irmão mais
tresloucado ainda ao descobrir o pai, disparando até ele, agarrando-lhe
o braço, puxando-o num arranco, sacudindo-o pelos ombros,
vociferando uma sombria revelação, semeando nas suas ouças uma
semente insana, era a ferida de tão doída, era o grito, era sua dor que
supurava (pobre irmão!), e, para cumprir-se a trama do seu concerto, o
tempo, jogando com requinte, travou os ponteiros: correntes corruptas
instalaram-se comodamente entre vários pontos, enxugando de
passagem a atmosfera, desfolhando as nossas árvores, estorricando
mais rasteiras o verde das campinas, tingindo de ferrugem nossas
pedras protuberantes, reservando espaços prematuros para logo
erguer, em majestosa solidão, as torres de muitos cactus: a testa nobre
de meu pai, ele próprio ainda úmido de vinho, brilhou um instante à
luz morna do sol enquanto o rosto inteiro se cobriu de um branco
súbito e tenebroso, e a partir daí todas as rédeas cederam,
desencadeando-se o raio numa velocidade fatal: o alfanje estava ao
alcance de sua mão, e, fendendo o grupo com a rajada de sua ira, meu
pai atingiu com um só golpe a dançarina oriental (que vermelho mais
pressuposto, que silêncio mais cavo, que frieza mais torpe nos meus
olhos!), não teria a mesma gravidade se uma ovelha se inflamasse, ou
se outro membro qualquer do rebanho caísse exasperado, mas era o
próprio patriarca, ferido nos seus preceitos, que fora possuído de
cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a tábua solene, era a lei que
se incendiava — essa matéria fibrosa, palpável, tão concreta, não era
descarnada como eu pensava, tinha substância, corria nela um vinho
tinto, era sangüínea, resinosa, reinava drasticamente as nossas dores
(pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!), e do
silêncio fúnebre que desabara atrás daquele gesto, surgiu primeiro,
como de um parto, um vagido primitivo
Pai!
e de outra voz, um uivo
cavernoso, cheio de desespero
Pai!
e de todos os lados, de
Rosa, de Zuleika e de Huda, o mesmo gemido desamparado
Pai!
eram balidos
estrangulados
Pai! Pai!
onde a nossa segurança? onde a nossa proteção?
Pai!
e de Pedro, prosternado
na terra
Pai!
e vi Lula, essa criança tão cedo
transtornada, rolando no chão
Pai! Pai!
onde a união da
família?
Pai!
e vi a mãe, perdida no seu juízo,
arrancando punhados de cabelo, descobrindo grotescamente as coxas,
expondo as cordas roxas das varizes, batendo a pedra do punho contra
o peito
Iohána! Iohána! Iohána! e foram inúteis
todos os socorros, e recusando qualquer consolo, andando entre
aqueles grupos comprimidos em murmúrio como se vagasse entre
escombros, a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um
lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo:
tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do
deserto."

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Bartolomeu Campos de Queiroz - Vermelho Amargo



"Mesmo em maio — com manhãs secas e frias — sou tentado a mentir-me. E minto-me com demasiada convicção e sabedoria, sem duvidar das mentiras que invento para mim. Desconheço o ruído que interrompeu meu sono naquela noite. Amparado pela janela, debruçado no meio do escuro, contemplei a rua e sofri imprecisa saudade do mundo, confirmada pela crueldade do tempo. A vida me pareceu inteiramente concluída. Inventei-me mais inverdades para vencer o dia amanhecendo sob névoa. Preencher um dia é demasiadamente penoso, se não me ocupo das mentiras.
Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro. Principia nas unhas, passa pelos cabelos, contagia os ossos, penaliza a memória e se estende pela altura da pele. Nada fica sem dor. Também os olhos, que só armazenam as imagens do que já fora, doem. A dor vem de afastadas distâncias, sepultados tempos, inconvenientes lugares, inseguros futuros. Não se chora pelo amanhã. Só se salga a carne morta.
No princípio, se um de nós caía, a dor doía ligeiro. Um beijo seu curava a cabeça batida na terra, o dedo espremido na dobradiça da porta, o pé tropeçado no degrau da escada, o braço torcido no galho da árvore. Seu beijo de mãe era um santo remédio. Ao machucar, pedia-se: mãe, beija aqui!
Há que experimentar o prazer para, só depois, bem suportar a dor. Vim ao mundo molhado pelo desenlace. A dor do parto é também de quem nasce. Todo parto decreta um pesaroso abandono. Nascer é afastar-se — em lágrimas — do paraíso, é condenar-se à liberdade. Houve, e só depois, o tempo da alegria ao enxergar o mundo como o mais absoluto e sucessivo milagre: fogo, terra, água, ar e o impiedoso tempo.
Sem a mãe, a casa veio a ser um lugar provisório. Uma estação com indecifrável plataforma, onde espreitávamos um cargueiro para ignorado destino. Não se desata com delicadeza o nó que nos amarra à mãe. Impossível adivinhar, ao certo, a direção do nosso bilhete de partida. Sem poder recuar, os trilhos corriam exatos diante de nossos corações imprecisos. Os cômodos sombrios da casa — antes bem-aventurança primavera — abrigavam passageiros sem linha do horizonte. Se fora o lugar da mãe, hoje ventilava obstinado exílio."

sábado, 11 de agosto de 2012

Saudade - Nello Nuno


O quadro de Nello Nuno “Saudade” foi descrito pelo poeta Álvaro Andrade Garcia: 
“O quadro era quase todo uma mancha verde. Vários tons dessa cor, sobrepostos com vigorosas pinceladas, formavam uma gradação que partia da cor mais escura embaixo à mais clara na parte superior da tela. Dessa forma os planos ficavam aparentemente confusos. Mas a impressão que se tinha era de que o primeiro plano continuava por algo que seria uma janela, dando para montanhas ao fundo. Algumas pinceladas brancas, em forma de retângulos e triângulos, pareciam indicar uma cidade no canto superior esquerdo. Atrás dela, uma porção verde-oliva: as montanhas. No canto superior direito, o verde escuro das porções inferiores dava a impressão de haver algo tenso, inexplicável. Nas proximidades dessa mancha, um velocípede e uma planta davam um ar de familiaridade à cena. Finalmente, algumas pinceladas vermelhas no centro da tela, um pouco à esquerda, formavam algo entre uma grade e as chamas de uma fogueira. Reunindo o branco e o vermelho, em proporções mínimas, diluídos no verde, o artista conseguiu transmitir uma estranha sensação de leveza. Ao mesmo tempo, detalhes como uma fissura ao longo do centro de gravidade da cena ou o imobilismo do velocípede remetiam o observador atento a um estado de primitivismo e até mesmo de ausência.”

EMILY DICKINSON

Para encher um vazio

Ponha de volta aquilo que o causou.

Baldado cobri-lo

Com outra coisa - sua boca vai mais se escancarar -

Não se pode soldar o abismo

Com o ar

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Santo Agostinho

"Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos."

terça-feira, 7 de agosto de 2012

E Riobaldo diz da dificuldade de ser bom:

(Da série "Como João Guimarães Rosa pode mudar sua vida", parte3)

“Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado.”
(GSV, Pg. 16)

Durante muitos anos perguntei, em atendimentos psicoterápicos, quem poderia enumerar 3 pessoas que fossem boas e não fossem bobas. Via de regra a maioria das pessoas encontrava muita dificuldade de citar as 3 pessoas. Citavam, mas, ao pensar um pouco melhor, acabavam por descobrir que as pessoas em questão podiam até serem boas, mas também eram bobas, inocentes, de algum modo eram manipuladas em sua suposta bondade.

E nestes anos todos somente 3 pessoas se incluíram na lista dos que eram bons e não eram bobos. E seria de se esperar que muitos o fizessem, uma vez que ser bom é um valor que quase todos almejam. O fato disso não acontecer indica a confusão geral que se faz entre ser bom e ser bobo, ou seja, como os conceitos de bom e bobo estão misturados nas nossas cabeças.

Não é fácil ser bom. A maior parte das vezes quando achamos que estamos sendo bons na verdade estamos fazendo o bem, estamos sendo benfeitores. Podemos iniciar a diferenciação entre esses dois conceitos contrapondo a gratuidade da bondade, que não espera nada em troca, do caráter manipulativo de fazer o bem, onde se espera que o outro fique devendo um favor e fique assim aprisionado em mim, devendo alguma forma de gratidão.

Diante destas colocações fica evidente a importância da passagem bíblica: “...sejais sábios no bem, mas simples no mal.” Romanos, 16:19 No tocante ao mal é simples: se alguém quer lhe fazer o mal, fuja, corra, pique a mula. Mas e diante do bem? É preciso sabedoria. Será se esta pessoa quer fazer o bem ou é de fato boa? Será se eu estou sendo bom ou fazendo o bem?

Neste sentido disse Confúncio: “A maior ofensa que podemos fazer a um amigo é prestar-lhe um favor e o maior dos revides é a ingratidão”.

Uma amiga me lembrou de uma música muito apropriada.





A pessoa que é realmente boa se admira, cuida de si mesmo, se respeita, se revela, se transforma, se autonomiza. E como consegue ser assim para si mesma pode ser da mesma forma para o outro. A pessoa que é realmente boa quase sempre é chamada de egoísta, porque não faz o bem, não privilegia as cumplicidades e não se sente presa a gratidões alheias. Mas, ao ser chamada de egoísta, uma pessoa que é boa não se abala, pois sabe-se, e não tem medo de parecer egoísta. A pessoa que é boa é serena, é inquieta e esperançosa diante das incertezas da vida.

A pessoa que faz o bem é ansiosa, agitada e aflita, na ânsia de salvar o outro para provar seu valor.

Ou seja, nas palavras de Rabindranath Tagore, no seu texto Pássaros Perdidos: “Quem se ocupa demasiado em fazer o bem não dispõe de tempo para ser bom.”

Ou, se alguém quer realmente ser bom basta seguir a sugestão de Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”. 

A GOVERNANÇA CORPORATIVA E A NOÇÃO DE PESSOA




Com o desenvolvimento do capitalismo e o agigantamento das corporações, ocorreu uma dispersão do capital de controle das empresas, a qual resultou numa fragmentação da propriedade. Isto tudo desembocou no divórcio entre a propriedade e a gestão: os proprietários-acionistas não mais dirigem as empresas. Estas são geridas por executivos contratados. A pulverização do capital associada à separação entre a propriedade e a gestão resultou em conflitos de interesses entre as partes. A governança corporativa se desenvolve então como uma forma de se administrar esses conflitos. E o faz principalmente estabelecendo formas de conduta e de controle, regras para o relacionamento entre as partes e sistemas de registro e fidedignidade das informações.

O interesse pelo assunto governança corporativa ressaltou-se a partir de 2001, particularmente em função dos colapsos de grandes corporações, o que gerou grande desconfiança no mercado. No ano seguinte, o governo federal norte-americano, interessado em tentar restaurar a confiança no modo como as empresas eram administradas, aprovou a lei Sarbannes-Oxley, que estabelecia normas mais rígidas de administração, na tentativa de minimizar os escândalos e as fraudes e maximinizar a boa governança e a prática ética dos negócios.

A governança corporativa se fundamenta, segundo Andrade e Rossetti[1], nos seguintes valores:  Fairness, ou senso de justiça, equidade (considerado em relação ao tratamento dado aos acionistas); Disclosure, ou transparência (das informações, especialmente das de alta relevância); Accountability, ou prestação responsável de contas; e por fim Compiliance, ou conformidade (com as normas e leis).

Neste livro diz-se que esses valores são “das mais importantes dimensões da governança corporativa: os valores lhe dão sustentação, amarrando concepções, práticas e processos de alta gestão”.   

O conceito de valor é por demais complexo. Tem múltiplos significados se avaliado do ponto de vista da economia, da sociologia ou até da teoria do valor. Quando consultamos o dicionário Houaiss encontramos 25 sentidos diferentes para a palavra valor, fora outros tantos conceitos relacionados. Entre os vários significados parece evidente que os autores em questão se referem a um significado específico quando dizem dos valores fundantes da governança corporativa, a dizer, o conjunto de princípios ou normas que regem esta atividade. É importante ressaltar que este enfoque do conceito de valor remeta a uma ética, ou seja, a valores e princípios que orientam a ação humana.

Retornando à axiologia de valores da governança corporativa proposta acima observamos que esta se mostra basicamente instrumental, voltada para fins práticos, e por isso mesmo, pouco valorativa ou axiológica de fato, ou seja, pouco voltada para um sistema de valores que se orientem em direção a convivência, a comunicação humana, a relação entre pessoa-pessoa, sujeito-sujeito.

Equidade no tratamento aos acionistas, transparências nas informações de relevância estratégica, responsabilidade na prestação das contas e conformidade com as normas e leis em questão não são bem um sistema de valores, orientados para a convivência humana, mas antes um sistema de práticas que objetivam um maior controle e manipulação do mundo das coisas.

Há uma forma de contradição ao se propor uma axiologia – um sistema de valores – baseada numa razão instrumental. A razão instrumental se orienta para o êxito, para a manipulação da realidade e não para o entendimento comunicativo. Um sistema de valores diz respeito a normas de convivência. Conviver diz respeito a interação entre sujeitos, a interação comunicativa entre pessoas que buscam o entendimento ( o que, entenda-se,  é diverso de se buscar a concordância).

Os autores citam ainda a “síntese das diversas dimensões da governança corporativa”, Também denominada de “os sete P´s”: propriedade, princípios, propósitos, poder, processos, práticas e perenidade.

A propriedade é definida como um atributo fundamental e diferenciador. Pode ser familiar, consorciada, estatal ou anônima. Pode ser fechada ou aberta, concentrada ou pulverizada. E estas variadas formas de organização direcionam a prática da governança corporativa.

Os princípios são exatamente os referidos valores, citados anteriormente. São tratados como a base ética da governança.

Os propósitos são a maximização do retorno total dos investimentos dos acionistas e a harmonização do retorno daqueles com os interesses de outros grupos relevantes (executivos, funcionários, públicos interno e externo da empresa). E juntando os dois itens anteriores alcançar a chamada  maximização iluminada do valor.

O poder diz respeito a constituição da estrutura de poder da empresa. Quais são as prerrogativa dos proprietários, quais as funções e responsabilidades dos conselhos e da direção. Se diz desejável que decisões de alto impacto sejam de decisão compartilhada. Aqui também cabe o planejamento das sucessões.

Processos se relaciona á constituição de órgãos de governança, a formulação, homologação e monitoramento de estratégias, operações e resultados e a instituição de um sistema de controle de riscos internos e externos.

Práticas trata da gestão do que se denomina conflitos de agencia (gestores versus acionistas), minimização de custos deste gerenciamento e ainda gestão de relacionamentos internos e externos.

Perenidade diz da continuidade no tempo, objetivo ultimo da quase totalidade das organizações. É fortemente associável a gestão eficaz de riscos empresariais, a criação de valor para os acionistas e a conciliação dos interesses dos destes com os de outros grupos de interesse.

Cabe observar que o P de princípios diz fundar a ética da governança corporativa. Mas, como dito anteriormente, aqui se apresenta uma ética instrumental (se é que podemos realmente chamar isto de ética), e não uma ética valorativa e relacional. A interação sujeito-sujeito não é o foco desta suposta ética.

Com a eclosão da bolha imobiliária norte-americana, em agosto de 2008, e com a decorrente crise mundial que veio em seguida, afetando profundamente empresas e países, questionamentos sobre a gestão das empresas e riquezas mundiais se intensificaram. A tentativa de se estabelecer regras e controles mais rígidos para a gestão corporativa, que vinha se desenvolvendo particularmente a partir do início do milênio, se mostrou infrutífera e insuficiente. Novas praticas e normas são discutidas e propostas. Particularmente relevante se torna a questão da sustentabilidade, uma vez que o modelo econômico e empresarial se mostra mais do que incompetente para evitar crises tão profundas, haja visto que este mesmo modelo é apontado como uma das próprias causas da crise. Busca-se então um aprimoramento das ferramentas de gestão e planejamento estratégico de forma a incorporar critérios sócio-ambientas e de sustentabilidade na governança corporativa. 

Com  a 3ª Conferência Global de Sustentabilidade e Transparência, da Global Reporting Inifave, 3 “erres” vem se juntar aos 7 “P´s” da governança corporativa. Repense seus princípios pois o consumo de recursos naturais já ultrapassou os limites do planeta; Refaça suas práticas, pois com a consciência da crise podemos agora reconduzir a economia na direção de práticas sustentáveis agregadoras de valor; e Relate sua experiência, pois a sistematização destas experiências podem ser uma eficaz ferramenta de mudança, na qual tanto os negócios como as pessoas possam ser beneficiados.

É de se destacar, entre os “P´s” da governança coorporativa citados anteriormente, a ausência de um “P” essencial, atualmente considerado fundamental aos processos de gestão empresarial: o “P” de pessoa.

Quem trabalha, dirige, gere, lucra, interage, inova, negocia, e tantas outras ações mais, nas empresas? Onde está a pessoa, esse ser-sujeito oculto nos balanços e na fragmentação do controle acionário? Apesar de difícil de se enxergar, em algum lugar ele deveria estar.

É moda na administração moderna pelo menos aparentar que as pessoas são consideradas. Por isso mesmo é curioso que nos sete “P”s da governança corporativa o “P” de pessoa nem se insinue. Dentro deste contexto fica mais claro o porque da ética da governança corporativa se apresentar tão instrumental e tão pouco relacional, tão prática e tão pouco valorativa, tão monológica e tão pouco dialógica.



A governança corporativa se propõe ser uma política de negociação de interesses divergentes, entre os diversos atores envolvidos. Mas, em virtude da desconsideração da noção de pessoa com um de seus fundamentos, acaba por se tornar uma política baseada na disputa por poder, na qual não se busca verdadeiramente a dialogia entre as partes, nem se considera possível a concórdia de interesses plurais. A negociação de interesses divergentes, baseada na interação dialógica de pessoas interindependentes, fica assim impedida de se realizar.

Nello de Moura Rangel Neto






[1] Andrade, Adriana e Rossetti, José Paschoal. – Governança Corporativa, Fundamentos, desenvolvimento e tendências. 3ª edição. Editora Atlas.

sábado, 4 de agosto de 2012

João Guimarães Rosa - Religião


“O que mais penso, texto e explico :todo-o-mundo é louco.  O senhor, eu, nós, as pessoas todas.  Por isso é que se carece principalmente de religião:  para se desendoidecer, desdoidar.  Reza é que sara da loucura.  No geral.  Isso é que é a salvação-da-alma...  Muita religião, seu moço!  Eu cá, não perco ocasião de religião.  Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...  Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.  Rezo cristão, católico, embrenho a certo;  e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque.  Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista:  a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.  Tudo me quieta, me suspende.  Qualquer sombrinha me refresca.  Mas é só muito provisório.”