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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Do amor à vida



Quanto atentos estamos ao mais singelo aspecto ao nosso redor?

Essa rachadura na parede à nossa frente será, provavelmente, consertada em tempo. Mas mesmo que não o fosse, mesmo que tudo aqui ruísse, ainda assim, sobre as pedras que sobrassem, musgos, capim, moitas e, depois, árvores, viriam, transformando e recriando esse lugar.

Esse menino esteve doente outro dia. Mas a febre passou e ele voltou a comer melhor. Já está crescendo de novo.

Mesmo após um tsunami, após a explosão de um vulcão, ou um terremoto, ou guerras terríveis, mesmo após isso tudo, a vida volta. 

Será se precisaríamos passar por enorme apuro para, somente então, conseguirmos vislumbrar as janelas, portas e frestas abertas?

Quando biófilos conseguimos ver melhor.

Parece que temos a necessidade de projetos duradouros, por nossa sede de permanência. O trabalho nos tomará muitos anos. Os filhos, se os tivermos, mais tantos. Mas um dia estaremos aposentados e nossos filhos estarão cuidando da vida deles (e isso nos fará felizes). Nosso conjugue poderá demorar mais que os outros dois. Mas um dia também poderá nos deixar. Contudo, os três, como tudo que é vivo, seguirão seu curso, afirmando cada qual a sua finitude. Nós também.

O amor à vida não seria, pois, o afeiçoar-se a esses processos, essas jornadas? A esperança - belo sinal da presença biófila - não seria também algo semelhante? Um saber-se finito e a caminho dessa finitude, e permanecer caminhando, intuindo que é nesse caminhar que permanecemos, mesmo se formos?

É como Miguilim descobrindo a beleza do mundo pouco depois de perder seu irmãozinho, o Dito.

O amor à vida é como o capim agora verdinho, que depois de meses de seca, acaba de ver chuva. É como a cadelinha sumida do sítio que reaparece cheia de cachorrinhos.  É como aquela pessoa arrasada por meses depois de um término de um amor que conhece alguém muito legal e se vê com os olhos brilhando. É como a cidade depois da enchente que começa a se limpar, tirar a lama, se assemelhando ao que era antes. O amor a vida se parece com a pessoa magoada, triste por pensar que nunca recuperaria aquela amizade e que se assusta ao perceber que já conversa com o amigo, esquecendo-se, ao menos por momentos, do rancor. Se parece com um filho inesperado para um casamento até então infértil, ou com um casamento sem filhos que descobre outros frutos gerados. Ou com um neném boquiaberto ao ir descobrindo o mundo. Ou com uma criança às vésperas do natal. O amor à vida é como um caderno novo no primeiro dia de aula. É uma aposta, de carta marcada, na beleza, bondade e sentido da vida.

O amor à vida está ao alcance de nossas mãos. Já. Agora. Se olharmos verdadeiramente o mundo. 

O amor à vida é um bom remédio para a saudade.


domingo, 13 de setembro de 2015

Eu gosto de laranja


A noite foi muito legal. Combinaram de se ver de novo na sexta, os dois teriam uma semana bem puxada. Conversaram num clima ótimo todos os dias durante a semana. Na quinta, quando ele ligou a conversa já era outra:

- Foi bom mesmo você ter ligado. Preciso conversar com você.

O tom definitivamente não era bom. Na hora ele percebeu que já era. Combinaram um horário. Na sexta sentaram e ela começou:

- Sabe o que é? Sei lá... Acho que o que aconteceu entre nós não deveria ter acontecido.... Acho que foi um erro.... Não devíamos ter ficado juntos.... Acho que foi um engano...

E foi falando, falando... Ele permanecia em silêncio. Até que ela concluiu:

- .... Acho que eu não gosto de você...

Ele ficou em silêncio mais um pouco e disse:

- Eu gosto de laranja.

- Como?

- Eu gosto de laranja. Aí eu descasco, chupo e não gosto mais. A vontade passa.

- Mas...

- Eu nunca pensei que gostasse de você. Gostar, para mim, é pouco. E passa rápido. Eu percebia em nós uma afinidade, uns interesses comuns.... Eu achei mesmo que poderia te amar.

- !?... Mas, se é assim...


- Desculpe, mas acho que você não está entendendo. Agora quem não quer sou eu. Sinto, mas não quero me envolver com uma pessoa que uma hora quer, depois segue entusiasmada, toda feliz e, do nada, muda de opinião e acha que não gosta mais. Se orientar por gostar ou não é muito pouco. Eu gosto de laranja. E não trato pessoas assim. Não quero quem quer uma hora, depois avalia se não haveria algo melhor e já não quer mais. Quero quem me queira.

domingo, 2 de agosto de 2015

Ao alcance da mão


- Estou bem.
- Que bom. E Por que?
- Não sei. Estou bem. Meio à toa, sem motivo. Outro dia escutei uma música e fiquei bem. Só por isso! Imagina!



O grupo todo estava bem deprimido. E era um grupo grande, umas doze pessoas. Eu e a outra terapeuta começamos o grupo perguntando o que que eles gostavam muito e que a muito tempo não faziam.
- Como assim?
- O que você gosta muito e a muito tempo não faz?
- Mas que tipo de coisa? Viajar pro exterior, por exemplo?
- Não! Uma coisa mais simples. Pequena mesmo. Que seja muito fácil de fazer. Mas que, mesmo assim, a muito tempo você não faz. 
- Eu gosto de sorvete de creme... e a muito tempo não como...
- Isso! Esse exemplo tá ótimo! Sorvete de creme vende em todo lugar. Nem precisa comprar o potão. Pode comprar uma bola só.
- Pois é. Gosto muito. E, sei lá... deve ter muitos anos que não como...
- Por que? 
- Taí uma boa pergunta. Não sei o porque.
- Pois eu gosto de conversar com Tia Babita e tem um tempão que não converso com ela.
- Ela mora longe?
- Mora no mesmo quarteirão que eu, tá velhinha... sempre penso em ir lá. Mas nunca vou.
- Eu gosto de andar de bicicleta.
- Eu de dobradinha.
- Tem gosto pra tudo...
E foi disparando. Cada um dizendo de uma pequena coisa, de um detalhe, de uma miudeza, todas simples, ao alcance da mão, mas que já há muitos anos não eram feitas. Mas lembrar também é uma forma de viver. E narrar é uma forma de lembrar. E cada um dizia, um outro escutava, achava graça, e lembrava de alguma coisa que também gostava, que achava bonita, e que podia até pegar se quisesse.
O grupo já tinha outro tom. Semblantes mais leves. Olhares trocados. Uns caçoando amorosamente doutros. 
Terminamos a reunião com uma poesia:

"Enfim, o que importa?
Saber em qual porta tentar?
Saber como continuar?
Cair, deitar, levantar?
Enfim, algo importa?
Topo, auge, ponta ou meta,
cima, baixo, melhor ou pior:
Algo me toca?
E então, porque tanto medo?
Se nada tem relevância,
se não se busca o aconchego?
Enfim, o que fica?
Se se pode morrer tão cedo,
se o tempo sempre marca e envelhece?

Na retina das lembranças se há amor
a saudade se distancia.
Se se morre cedo
durante alguns anos aqui esteve
(nunca agradeci os dez anos que tive, sempre xinguei os setenta que me foram tomados).
E o tempo também nós trás uma sabedoria infantil
de não perder mais tempo
de se fazer o que gosta e por inteiro
de amar intensamente.

Está ao lado
de tão perto
singelo
ao alcance da mão
                basta pegar."

Por fim, na saída da reunião cada qual levava um dever de casa. Fazer, antes do próximo encontro, aquilo que amava e não fazia a tanto tempo.



- Quer dizer então que uma música lhe deixou bem por um dia inteiro?
- É... Não que eu esteja toda boa. Não estou. Ainda ando meio triste, às vezes, lembrando do Carlos. Ainda não entendo muito bem porque não deu certo. É certo que desde o início, tenho que admitir, não prometia muito né? Mas, apesar disto, não chego a estar triste mesmo. Engraçado... acho que devia estar mais triste...
- Luíza, quantos anos você ficou sozinha, sem nem procurar por alguém?
- Dez.
- Pois é. Dez anos. De luta, muita luta. Você precisava trabalhar, sua família teria que devolver a casa onde moravam e você precisou resolver isso. Trabalhou, construiu sua casa nova, levou sua família pra lá. Um período no qual você mais sobreviveu do que viveu. Agora essa etapa acabou e você começa a olhar em torno de si. Vê o Carlos. Se aproxima e acaba envolvida. Mas tudo acaba muito rápido. E você ficou bem mal. Mas já tá melhorando. Porque está recomeçando a viver. Ver o mundo, as pessoas, conviver, procurar, amar. Ter coragem de pensar que a felicidade também pode ser para você. Que a vida está toda aberta no adiante, que muito ainda você há de viver, que em muitas você ainda pode se transformar. Sofrimentos também serão vividos, é claro, ninguém escapa disso. Mas você sente que agora pode recomeçar.
- Ah! Entrei pra aula de dança também! Sempre quis aprender a dançar!
- Mas você tá impossível! Que bom! Dançar é bom demais!
- Sou dura demais. Mas começo segunda.
Nossa, essa música fez milagre nessa semana! Que música é essa?



Um pedido de graça, um pedido de vida, um afã de esperança... música assim faz mesmo bem.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A fresta



A briga começou de novo. Quando isso acontece é quase impossível parar. É sempre assim. Por qualquer coisa - na maior parte das vezes por um entendimento equivocado de algo que foi dito - as ofensas e grosserias se iniciam e contê-las é tarefa quase impossível. Sabe-se o final:  a exaustão  vence Eduarda, que se entristece terrivelmente. E  João permanece irritadíssimo e seguro de que tem razão, ainda por dias ou  semanas, nas quais o casal mal trocará palavra. Isso se não voltar a brigar de novo.



Brincadeira, né? Achar que ter ou não ter razão presta pra alguma coisa. René Descartes resolveu esse imbróglio já a uns 500 atrás, mas parece que ninguém contou pra gente. Inicia seu “Discurso Sobre o Método”, um dos livros mais importantes da história da filosofia, com o parágrafo: 

"O bom senso (ou a razão, preferem alguns...) é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm.”

É um bom texto para se iniciar uma psicoterapia de casal. Casal que procura tratamento normalmente já chega brigando. Um acusa o outro com uma facilidade impressionante. Quando a coisa parece fora de controle, leio o parágrafo acima. E digo que, isso posto, todos os presentes à entrevista podem considerar que têm razão a priori. O marido, a esposa, o namorado, a namorada, e até o terapeuta presente na sessão, têm razão. E que isso não será discutido na terapia. Pois nunca se viu ninguém rezar para deus tirar seu excesso de razão:

- Oh, senhor, tira um pouco da minha razão, sempre sou eu que a tenho...

A partir desse ponto, sugiro que cada qual pense em três características próprias que gostaria de mudar para facilitar o relacionamento. E não nos problemas que o outro tem, porque ver no outro o que ele tem de errado é fácil. O complicado é cada qual ver a parte que lhe cabe. Ou, como diria Guimarães Rosa:

"Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia."

Brigar para ter razão é brigar pelo trono vazio das pretensões.  Sentar nesse trono não leva a lugar algum. O máximo que conseguimos é colher um deserto.



A esposa estava bem alterada. Quase gritando elencava muitos motivos para sua raiva, desespero e frustração. Alguns desses bem que se adequavam aos problemas que o casal precisaria resolver. Mas o tom alto com o qual falava e, principalmente, a dureza dos argumentos que usava, faziam com que o marido emudecesse. Sentia que nada do que dissesse resolveria alguma coisa. Pelo contrário, pioraria. Sentia raiva, muita. Sentia também dor e tristeza. Pensava em como se separar com meninos tão pequenos, se desesperava ao pensar no sofrimento deles. Mas, para piorar, sabia que eles já deviam estar sofrendo com esse clima malsão em casa. E foi assim, quando o marido já alcançara o auge da desesperança, que a esposa colocou certa frase no meio de tantos impropérios:

- Fulano, eu gosto muito de você, mas...

E continuo falando no mesmo tom e com o mesmo tipo de argumento que vinha usando antes. Mas algo já acontecera. O marido estancara naquela frase.

-Mas, ela ainda gosta de mim?

Agora ele conseguia escutar alguma coisa e entender, ao menos em parte, a solidão da esposa em seu desespero.



A ciência da convivência é sutil e cheia de reentrâncias.

Os objetos coexistem. Os animais, pelo menos em sua esmagadora maioria, coexistem. Seres humanos convivem. Mais do que isto: seres humanos precisam conviver para se tornarem humanos. E conviver é diferente de coexistir. Em primeiro lugar na convivência - quando ela de fato é convivência - as pessoas envolvidas interferem, verdadeiramente, uma na outra. Modificam-se mutuamente. Após o encontro não são mais as mesmas. Em segundo lugar, na convivência não é preciso que as pessoas envolvidas concordem uma com a outra. Conviver é enxergar tudo, as concordâncias e as discordâncias, as semelhanças e as diferenças, as aproximações e os distanciamentos. É não buscar a homogeneidade nem a unanimidade. E não ter pressa diante do encontro. 

O marido acima já estava trancando com sete chaves a porta da convivência quando escutou "Eu gosto muito de você, mas...”. E foi suficiente para que ele destrancasse a porta e a deixasse aberta. Foi como se a esposa tivesse colocado o pé na porta que estava se fechando, permitindo assim alguma abertura, alguma brisa passando por essa fresta.

Já foi dito pelo filósofo Julian Marias que não se pode ser verdadeiramente inteligente sem alguma dose de bondade. E esse autor parece associar bondade a saber esperar, não fechar o sentido das coisas tão rapidamente, afeiçoar-se à realidade deixando, por isso mesmo, que ela se manifeste por inteiro e de distintos pontos de vista antes de tentar classificá-la em algum sentindo único. E que, para que isso aconteça, não podemos ter pressa. Assim, sem alguma bondade dá até para se ser rápido, mas não verdadeiramente inteligente. 

Dessa forma teríamos de optar, a cada dia, se seremos mais abertos ou mais fechados, diante da vida. Quando mais fechados ficamos mais defensivos, vivemos como se a realidade fosse algo intrinsecamente ameaçador. Assumimos então uma posição beligerante, de conflito e desconfiança frente ao mundo. E ficamos mais miseráveis, pois desprovidos da riqueza que a diversidade que a vida pode nos oferecer. 

Podemos porém optar pela abertura diante da vida. Conseguiríamos assim mais flexibilidade. E ficaríamos mais ricos, receptivos que estaríamos à diversidade das pessoas e do mundo. Aprenderíamos mais sendo receptivos à realidade e à experiência das outras pessoas. Um bom indício que estaríamos com maior abertura é a nossa postura diante erro, do engano ou da percepção de que algo nos havia escapado. Quando abertos à vida sentimos gratidão diante da percepção de que estávamos equivocados. Sentimos alegria quando admitimos que havíamos nos enganado. Gratidão e alegria justo porque agora nos aproximamos da realidade, podemos lidar com ela com mais clareza, podemos vê-la melhor.


As brigas entre Eduarda e João chegaram ao nível do insuportável, Eduarda já pensava em como fazer para separar-se. João já deixara claro que não abriria mão do filho. E eram de cidades distantes, o que dificultaria bastante a separação. Eduarda desabafa com um amigo de João, em busca de conselho. Ao saber, João indigna-se, sente-se exposto. É bem verdade que quem mais explode, quem mais vê intenções hostis em qualquer afirmação, quem mais se mostra impermeável a qualquer abordagem, é ele. Ainda assim vai conversar com o amigo, na expectativa de provar alguma coisa, de mostrar como são justificadas suas atitudes. O amigo lhe surpreende:

- João, Eduarda te ama demais...

(A fresta se abre na porta, dá pra sentir a brisa entrando...). 

Algumas horas depois, ainda sem saber da conversa, Eduarda tenta uma nova aproximação. Liga e pergunta se pode buscá-lo no trabalho com o filho, nesta tarde de sol. Moram na praia, poderiam distrair um pouco o menino. Ele topa. O encontro é bom, ela toma sol, ele nada com o filho pequeno. Voltam pra casa em outro clima. Quando chegam Eduarda percebe, aterrorizada, que esquecera a porta de casa aberta. Isso já havia acontecido antes. João sempre explodia, achava um abusurdo esse descuido. Ele vê a porta escancarada. Olha pra ela. E diz:

- Estava com saudades, né?



Finalizando, lembrei-me de um pequeno poema de meu pai, Nello Nuno:


Atrás de uma porta aberta
há outra porta
aberta.
Atrás de uma porta fechada
há outra porta
e outra porta
e outra porta
fechadas.




quarta-feira, 25 de março de 2015

O fim do noivado



Imagine um homem bonito. E viril. E que ainda produz nas mulheres um sentimento maternal. (Droga existir um homem assim, né? Fazer o quê...)  Esse é o Gabriel. Imagine que ele gosta demais de uma menina, sempre quis namora-la e que, só depois de bons anos de luta, finalmente conseguiu. Essa é a Fernanda. Imagine que, como se não bastasse, o Gabriel é capaz de gestos de carinho e atenção extremamente cativantes, singulares, e ainda por cima, espontâneos e genuínos. Imagine, por fim, que os dois namoraram 5 anos e já estavam reformando o apartamento para se casarem daí a 8 meses quando ela pergunta se ele já a tinha traído.
Gabriel pensou um pouco. Teve medo que Fernanda já soubesse e que mentir fosse pior. E admitiu uma traição – verdadeiramente, a única – quando eles tinham por volta de um ano de namoro.
E Fernanda terminou tudo.
Gabriel ficou arrasado. Imagine um homem destruído. Era ele. Procurou seu psicólogo, consultou com um psiquiatra, passou a tomar remédio. Tentou de todas as formas convencer a noiva a reconsiderar. Mas ela foi irredutível. Nunca abriu brecha alguma. E xingava:
- Você deve achar que eu sou uma retardada, né? Que eu vou acreditar que foi só essa... é claro que você me traiu o tempo todo! Minhas amigas sempre me alertaram do garanhão que você é!
E Gabriel sentia-se ainda pior quando percebia que, ao menos em parte, colaborou pra esse sentimento. É um homem muito bonito, que trabalha num meio cheio de mulheres e carente de homens. Sempre foi muito assediado. Fora o caso já assumido, não ficou com mais ninguém. Mas sabe que permitia e até, de certa forma, incentivava, o assédio. Fazia bem pra ele. Ou, pelo menos, achava que fazia. As amigas deviam ver isso e comentar com Fernanda, imaginando o que ele devia fazer quando não na frente delas.  Devemos nos lembrar também o homem bonito que ele era, o belo casal que formavam e a inveja que deviam provocar. Isso também deve ter incentivado os comentários.
Fernanda nunca acreditou que pudesse ser só aquela vez.
E dava até pra entender essa vez. Eu conhecia Gabriel no início de seu namoro. E, apesar de ver seu entusiasmo com Fernanda, não conseguia acreditar que ele fosse ser feliz com ela. Achava Fernanda muito dura, agressiva e até hostil com ele. Ele trabalhava numa área difícil de conseguir reconhecimento, ainda não ganhava bem, e ela deixava claro que queria ”um homem mais decidido, resolvido, capaz de conquistar suas coisas”. Por mais de uma vez fez planos de mudar de estado sem considerar o que ele achava, não se importando se daria pra continuar o namoro ou não. Ele foi se machucando. Ele tentou lembrar a ela que a traição ocorrera justo nessa época, não se justificando, mas tentando se explicar. Não adiantou, ela não reconsiderou.
No auge da crise, ainda muito sofrido, numa conversa com seu irmão – e eles nem se davam muito bem -, Gabriel recebeu essa pergunta:
- Você uma vez me disse que Fernanda era muito tensa e que, por isso, você gostava de fazer uma massagem nela, depois do amor.
- É verdade...
- Quantas vezes você deve ter feito essa massagem nela?
- Sei lá, inúmeras, não dá pra contar...
- E quantas vezes ela fez massagem em você?
(... Silêncio...)
E o irmão fecha o diálogo com chave de ouro:
- Gabriel, quem sabe amar é você. Ela nunca soube amar como você sabe. Você sabe se dar, sabe se dedicar, manter o entusiasmo... ela não. Será se algum dia ela verdadeiramente lhe amou?
Deve ter sido a coisa mais importante e verdadeira que o Gabriel escutou na vida.
https://www.youtube.com/watch?v=MdTreZH0f8M
Ele sabe amar. Sabe cuidar, investir, se doar. Talvez não saiba muito bem como mirar. E acertou o alvo errado. Talvez confunda um pouco amor-paixão-obsessão. E na verdade esse tenha sido o erro que o desviou no seu namoro.
O amor é a amizade do querer.
A paixão é a ambição do querer.
A obsessão é a cobiça do querer.
A amor é sinônimo quase perfeito de amizade. Se o amor fosse uma mão, a palma desta mão – a base, o fundamento – seria a amizade. Os dedos dessa mão seriam o cuidado, o respeito, a admiração, o carinho e o desejo. O amor tem duas características interligadas. Ele é reversível e exige reciprocidade. Se eu penso amar alguém, vou na direção desse meu afeto e esta pessoa mostra não sentir amor por mim, meu amor – se é realmente amor – se retraí. Sem a reciprocidade do amor do outro o amor se reverte e deixa de ser amor.
O amor sempre é bom.
A paixão é a ambição do querer, é o querer com entusiamo. A paixão é a graxa que vem recuperar a flexibilidade das molas do amor. Ela nada tem de ruim. Ruim é fazer o que fazemos quase sempre: confundi-la com o amor. Pois como a paixão trás em sua natureza a inconstância – ela vai e volta, ela aumenta e diminui, ela aparece e some – sempre que ela arrefece achamos que não amamos mais. Mas se tivéssemos um pouco de paciência veríamos que ela retornaria. E que, mesmo com ela ausente, ainda assim o amor estaria presente. Um amor mais calmo, mais sereno, mas que se esperar um pouco, verá, mais cedo ou mais tarde, o retorno da paixão e do entusiasmo.
Assim a paixão pode ser boa ou ruim, dependendo de se a confundimos ou não com o amor.
A obsessão é a cobiça do querer. É um querer que não aceita que o outro não queira e que está disposto a quaisquer condições para permanecer com o outro. Nesse sentido a obsessão é o contrario do amor: ela é não reversível e não exige a reciprocidade. Contando que você fique comigo, pouco importa que seja por amor, se for por qualquer outro motivo – por culpa, dó, falta de opção melhor, medo de ficar só, constrangimento ou qualquer outro motivo – ainda assim, se prisioneiro da minha obsessão, eu aceitaria.
Se o amor é sempre bom e a paixão pode ser boa ou não, a obsessão nunca é boa. Ela é a própria negação do amor e a ausência da soberania. Já não escolho tampouco sou livre: sou é prisioneiro do meu querer e de minhas vontades.
Quanto sofrimento seria evitado se tivéssemos essa diferenciação bem clara em nossas cabeças?



Túlio e sua mãe



Não sei explicar direito o impacto que a consulta com Túlio me causou, desde o início.
Estava diante de mim um jovem de 29 anos completamente destruído. Nem sei como ele deu conta de vir para a primeira consulta. Deve ter sido arrastado por algum amigo ou parente. E, como estava em choque, consentiu.
Havia perdido a mãe.  Ela sentiu-se mal, foi internada e faleceu dois dias depois, de uma rara e ainda incompreendida doença. Era muito jovem, tinha 50 e poucos anos.
E não era uma mãe qualquer. Nunca vi uma relação de amor tão clara, intensa, bonita. Mãe e filho davam-se muitíssimo bem. Brigavam, ambos de forte temperamento, mas mesmo nas brigas o afeto entre os dois sequer se arranhava.
Ele era filho único, o pai não o assumiu. A família da mãe se distanciou quando ela engravidou. E ela o criou sozinha. Tiveram no início muitas dificuldades,  mas ela, lutadora, cresceu muito profissionalmente e já a muito tinham uma vida tranquila e resolvida financeiramente.
E os dois se amavam. E como!
“Eu não consigo dizer o que sinto pela minha mãe. E sei que ela sente o mesmo por mim (Durante meses Túlio citava a mãe, nas consultas, como se ela ainda estivesse viva.) Não dá para explicar direito. Amo minha namorada. Sei que vou amar meus filhos. Mas não acredito que vá se comparar. Nunca senti por ninguém o que eu sinto pela minha mãe. Até nossas brigas são diferentes. Nunca ficamos magoados um com o outro. Entendo agora que tem gente que faz besteira numa hora como essa. Se mata. Meu sofrimento é tão desesperador. Quem não tem fé se mata mesmo, numa hora como essa.”
E ele foi falando. E eu em silêncio. Quase não disse nada. Foi provavelmente a consulta na qual eu menos falei, em toda minha história de consultório.
Foram duas horas de consulta e ele descrevendo sua dor mas, principalmente, seu amor por sua mãe. Em vários momentos ele se emocionava muito. Fiquei profundamente tocado com sua história. Também tive minhas perdas.
Já pertinho do fim do horário eu o interrompi. E perguntei:
- Você já agradeceu?
Anos depois ele me contou que pensou ”Vou rachar esse homem ao meio”. (Dizia isso às vezes,  quando tinha raiva de alguém, fazendo um gesto de Karate com a mão espalmada que gelava a espinha de qualquer um. Ele é um homem grande. ). Mas, talvez por sentir que eu também estava emocionado com o que ele me disse, me concedeu o benefício da dúvida e, antes de executar o veredito do golpe fatal, perguntou:
- Agradecer o que?!
- Agradecer ter tido uma mãe como essa. Agradecer a beleza do amor que vocês conseguiram juntos. Agradecer os 29 anos que teve convivendo com uma pessoa tão maravilhosa... Nunca vi uma história de amor tão bonita! Você tem que agradecer demais, ter tido uma mãe tão maravilhosa e ter sabido como retribuir, devolver, conviver tão bem com ela... que coisa linda foi a relação de vocês....

Não apanhei. E dois anos mais tarde Túlio me perguntou se eu me lembrava de nossa primeira consulta...
- E tem como esquecer?