sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

INFORMAÇÃO INICIAL PARA O PACIENTE COM TRANSTORNO DE PÂNICO




Você tem um problema bastante conhecido, que tem até um nome, é muito comum e é bastante bem-tratável. O nome deste problema é Transtorno do Pânico e ele consiste em crises de pânico súbitas, repentinas, imprevistas, espontâneas e recorrentes que incluem várias sensações como vertigem, tonteira, taquicardia, sudorese, sensações de falta de ar, formigamento, calafrios e muitas outras. Por causa delas, as pessoas tendem a acreditar que estão diante de um perigo como morte iminente, por ataque cardíaco ou asfixia, ou desmaio, queda, perda de controle, loucura, etc. É tão frequente que atinge cerca de 3 % da população. Você não é o único: em uma cidade de 10 milhões de habitantes isso representa cerca de 300.000 pessoas.

Como estas crises acontecem de repente, em situações variadas, e são muito assustadoras, as pessoas tendem a procurar, no início deste processo, ajuda médica, em geral cardiológica, por pensarem que se trata de um problema cardíaco. Aos poucos, com a repetição delas, começam a se sentir inseguras e pouco confiantes em ficar sozinhas ou saírem à rua desacompanhadas. Com isso passam a fazer muitas coisas apenas com a companhia de alguém, na ideia de que se acontecer algo, o acompanhante poderá tomar providências como levá-las a um médico ou para casa ou outro local sentido como seguro.

Às vezes este problema começa de forma mais gradual, sem grandes crises, mas com um progressivo aumento na insegurança de fazer coisas sozinho ou de enfrentar certas situações como passar em túneis, andar em conduções públicas (como ônibus, 166 metrô, trens, aviões), frequentar cinemas, teatros ou casas de espetáculos, andar em elevadores, pegar engarrafamentos, etc. A ideia costuma ser a de que, como alguma crise ou mal-estar pode acontecer numa situação dessas e, como a fuga delas é muitas vezes difícil, o melhor é evitá-las, para não correr o risco, seja de acontecer o perigo imaginado, seja de experimentar o intenso desconforto das sensações, ou de comportarse de modo inusitado.

Há debates ainda sobre as causas desse problema. Alguns médicos defendem que se trata de um problema bioquímico que só é tratável com remédios. Há argumentos fortes a favor desta posição, mas também há problemas, como os efeitos secundários que estas medicações produzem, como o fato de quase 2/3 dos pacientes voltarem a ter crises, uma vez suspenso o tratamento e ainda como as evidências de cura através de tratamentos não-medicamentosos como a psicoterapia comportamental. A nossa posição é que, quando as crises são muito intensas e frequentes, o uso de medicação torna-se necessário. Mas quando são menos frequentes ou mais brandas, uma intervenção estritamente psicológica é mais desejável. Por que? Porque pensamos que a causa deste problema é psicológica (o que não exclui a ocorrência de processos bioquímicos cerebrais). São dois motivos principais:

Em primeiro lugar, é preciso a gente entender que o modo da gente pensar afeta, isto é, determina o que se sente. Qualquer situação com que nos deparamos, automaticamente nos faz pensar coisas boas ou ruins sobre ela. Em uma situação, se eu penso que estou em perigo, sinto medo; se penso que vai acontecer uma coisa ótima, fico alegre. Assim, qualquer sentimento é sempre causado por algum pensamento ou algum evento externo. Mas as duas avaliações podem estar erradas: de repente, eu descubro que não estou em perigo e o medo passa; ou o que eu pensei que iria acontecer 167 de bom era um engano, e não fico mais alegre. É assim que muitas vezes as coisas se passam na nossa cabeça e na nossa vida.

É preciso também entender que sempre precisamos agir ou nos comportar para saber qual a consequência deste nosso comportamento. O que acontece em função de nosso comportamento determinará se nos comportaremos da mesma forma no futuro. Quando ficamos preocupados com certos problemas, tendemos a sentir ansiedade. Sentir medo ou ansiedade significa ter aquelas sensações desagradáveis (falta de ar, taquicardia, etc.). Se, com certas sensações do nosso corpo, pensamos que vamos ter um ataque cardíaco, é bastante aceitável que fiquemos apavorados. Estamos acreditando mesmo que corremos perigo. E se corremos perigo (ou pensamos que corremos), como não sentir medo? A ocorrência daquelas situações (produzidas por ideias de perigo) confirma mais ainda a idéia de um ataque cardíaco iminente, o que faz aumentar ainda mais a intensidade das sensações, e assim por diante. Rapidamente, portanto, numa espiral, acontece a crise de pânico. Mas, já reparou que tudo aquilo de pior que você prevê nunca acontece? Ora, isto significa que estamos avaliando mal ou pensando errado sobre estas situações. As avaliações que fazemos sobre estas sensações estão incorretas e precisam, portanto, ser reformuladas. Todas estas coisas fazem com que fiquemos meio como um radar reparando em tudo em volta e, sobretudo, em tudo no nosso próprio corpo. Por causa disso, qualquer alteração ou sensação “estranha” no nosso corpo quase sempre acaba sendo interpretada como um sinal de uma doença perigosíssima ou de um perigo fatal e iminente. Mas a gente pensar que alguma coisa é perigosa não quer dizer que, obrigatoriamente, ela seja, por mais que o nosso pensamento pareça verdadeiro. Às vezes nos enganamos mesmo quando pensamos que estamos certíssimos. Por isso, o tratamento consiste, em parte, em ensinar a você a 168 descobrir quando você está pensando certo e quando está pensando errado, para você poder deixar de ter medo de coisas que não são verdadeiras ou reais. Da mesma forma você vai aprender novos comportamentos de enfrentamento das situações que você tem medo. Por isso nós vamos discutir seus pensamentos que ocorrem nas sessões e os que ocorrem fora delas (e que você vai trazer anotados). Você vai aprender a testá-los para ver se são verdadeiros ou se são lógicos. Por exemplo, eu quero que você respire forte e rápido por dois minutos. Após 30 ou 40 segundos, ou mais um pouco, pare e preste atenção no que você está sentindo. Não são sensações semelhantes às que você teve quando em pânico? (Ex.: taquicardia, sudorese, boca seca, etc.) Veja, primeiro, como você pode fazer coisas com seu corpo, sem querer. Mesmo sem perceber, numa situação de estresse ou preocupação, respiramos profundamente. Isto pode, como vimos neste exercício, provocar sensações “estranhas” no nosso corpo (como essas que você acabou de sentir, semelhantes às de ansiedade). Assim, fica fácil interpretá-las (erradamente) como sinais de ataque cardíaco ou desmaio, por exemplo, e não apenas como (verdadeiramente) sinais de ansiedade decorrente de preocupações.

Você vai aprender que uma coisa é algo ser perigoso e outra é algo ser desagradável. Você já viu e sabe que o que se passou com você é algo muito desagradável. Mas é perigoso? Se apesar de sentir as sensações desagradáveis, nunca acontece nada do que você pensa que vai acontecer, isto não será uma prova de que as suas sensações não são sinais de perigo? Descobrir isso significa que você pode ter essas sensações, apesar de serem muito desagradáveis, e que você não precisa fugir delas de qualquer modo, desesperadamente, pois nada de perigoso está acontecendo. O problema se reduz apenas em você aprender a minimizar a intensidade com que elas aparecem, para não serem tão desconfortáveis. Para isso você vai aprender a relaxar e a respirar de uma forma que produza relaxamento; vai aprender a examinar os seus pensamentos para poder torná-los mais realistas e verdadeiros, que não possuam ideias de ameaça irreais e falsas. Conseguir mudar seus pensamentos ajudará você, como vimos, a deixar de sentir medo. Para exercitar tudo isso, será necessário você se expor gradualmente às situações que produzem ansiedade e às sensações que ela produz no seu corpo, de modo que você passe a reconhecer e compreender o que se passa com você, nos seus pensamentos e no seu corpo. Assim, você vai conseguir se acalmar nas próprias situações.

Com isso, você poderá (1) testar suas ideias distorcidas; (2) verificar que são falsas; (3) descobrir que não precisa fugir desesperadamente em busca de ajuda; (4) reconhecer que, sozinho, você poderá superar e resolver tudo até se acalmar; e (5) reconhecer que você não precisa de um acompanhante para ter segurança. Você terá então aprendido a manejar seu medo/ansiedade/pânico e estará praticamente bom.

Mas faltará ainda alguma coisa. O outro aspecto é que ficamos assim, com Transtorno de Pânico, quando temos medo de tomar decisões ou de agir de modo independente, autônomo, confiante e seguro em nossas vidas. Principalmente quando uma ou mais coisas estão insatisfatórias ou ruins na nossa vida e não sabemos que fazer para mudá-las (ou sabemos, mas temos medo de fazer o que queremos). Elas nos incomodam e provocam sentimentos ruins, desagradáveis, que a gente tenta negar, evitar percebê-las. Aí, qualquer situação que nos faça pensar que podemos perder o controle sobre elas nos ameaça, pelo contato com elas e pela idéia de perda de controle que pode nos levar a fazer o que desejamos mas temos medo de fazer. Isto pode produzir crises de pânico que seguem a espiral que descrevi antes. Vamos precisar ver o que está insatisfatório na sua vida e o que falta para que ela fique satisfatória, como você quer que ela seja. Vamos precisar ajudar você a se reorientar na vida; em vez de ficar se preocupando com o que há de ruim, com o que pode acontecer de ruim, vamos tentar fazer com que você consiga se orientar para o que há de bom, gostoso, positivo, desejável, realizador. Só manejar crises não é o suficiente; é preciso acabar com aquilo que começou a provocá-las. E isto, só com essa reorientação de vida.



In Psicoterapia Comportamental e Cognitiva, Bernard Rangé.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A pipoca - Rubem Alves




A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP).

Rubem Alves

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Falou bonito

Como diria a mocinha da roça:
"Meu homem prosa bonito...
Prosar feito ele, ninguém!
Às vezes, sei que tá mentindo...
mas ele mente tão bem!
Que no final,
vou engolindo, engolindo,
e acabo achando
que razão
ele é que tem!"

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cartinha da filha

E aí, lá estava eu com calafrios, debaixo das cobertas, esperando o anti-térmico fazer efeito, quando minha filha me dá a cartinha.
"Papai, estou com saudades da sua alegria e bondade comigo, espero que melhore logo, estou aqui ao seu lado, você vai sarar. Um beijo. Assinado: Júlia Junqueira."
Santo remédio...

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A memória, essa dissimulada!



A memória - essa dissimulada - me diz que foi Octávio Paz quem escreveu que "A chave de todo mistério é que atrás de todo mistério não há mistério nenhum." O Google -  esse decifrador de memórias confusas - foi incapaz de certificar-me de quem é essa frase. Enfim, tomo a liberdade de considerá-la mesmo de Paz, como um tipo de muralha contra a mistificação dos saberes. É como se ele dissesse que nada é incompreensível, no máximo está incompreensível, mas, se melhor colocado ou contextualizado, faria-se claro e acessível. Gosto dessa frase, seja ela de quem for. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Olhar para a vida - José Tolentino Gomes

Olhar para a vida

A dada altura percebemos que o mais importante não é saber se a vida é bela ou trágica, se, feitas as contas, ela não passa de uma paixão irrisória ou se a cada momento se revela uma empresa sublime. Certamente está-nos reservada a possibilidade de a tornar em cada um desses modos, só distantes e contraditórios na aparência.

A mistura de verdade e sofrimento, de pura alegria e cansaço, de amor e solidão que no seu fundo misterioso a vida é, há de aparecer-nos nas suas diversas faces. Se as soubermos acolher, com a força interior que pudermos, essas representarão para nós o privilégio de outros tantos caminhos. Mas o mais importante nem é isso, aprendemos depois. Importante mesmo é saber, com uma daquelas certezas que brotam inegociáveis do fundo da própria alma, se estamos dispostos a amar a vida como esta se apresenta.

A dada altura compreendemos que falar sobre o ar, como faz o poeta Tonino Guerra, não tem de ser uma deriva, mas um chamamento à construção concreta que a vida é, confirmada (ou não) pelo nosso sim: «O ar é esta coisa ligeira/ que te gira em torno à cabeça/ e torna-se mais clara/ quando ris». Ou que quando Simone Weil repete que «a atenção é uma prece», ela mais não faz do que mobilizar-nos para a aliança com o agora, porque se não formos prudentes e generosos para manter os olhos maximamente abertos sobre o presente, que ciência poderá o futuro constituir para nós?

O viver tem esta simplicidade, que precisamos de redescobrir, despojando-nos do muito que nos atravanca, relançando-nos no seu obstinado fluxo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela, por uma muralha de discursos, de angústias, de confusas esperanças. Precisamos de perfurar esse muro até ao fim.

É necessário decidir, portanto, entre o amor ilusório à vida, que nos faz adiá-la perenemente, e o amor real, mesmo que ferido, com que a assumimos. Entre amar a vida hipoteticamente pelo que dela se espera ou amá-la incondicionalmente pelo que ela é, muitas vezes em completa impotência, em pura perda, em irresolúvel carência. Condicionar o júbilo pela vida a uma felicidade sonhada é já renunciar a ele, porque a vida é dececionante (não temamos a palavra).

Com aquela profunda lucidez espiritual que por vezes só os homens frívolos atingem, Bernard Shaw dizia que na existência há duas catástrofes: a primeira, quando não vemos os nossos desejos realizarem-se de forma alguma; a segunda, quando se realizam completamente. Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.

A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

Não se trata apenas de viver o instante, tarefa inútil, pois a vida é duração. Aquilo que nos é dado dura, e nós dentro dele, com ele, por ele. Não é a flor do instante que nos perfuma, mas o presente eterno do que dura e passa, do que dura e não passa.

E quando é que chega a hora da felicidade?, perguntamo-nos. Chega nesses momentos de graça em que não esperamos nada. Como ensina o magnífico dito de Angelus Silesius, o místico alemão do século XVII: «A rosa é sem porquê, floresce por florescer/ Não se preocupa consigo, não pretende nada ser vista».


José Tolentino Mendonça
In Expresso, 13.6.2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Uai, eu?

Se o tolo começa a suspeitar, nem que seja por um instante, que possa, talvez, quem sabe, quiça, pode ser que, esteja nele mesmo, aquilo que não o deixa compreender, já começou a melhorar, nem que seja um tiquinho só, em argúcia.
Guimarães Rosa, com uma pequena intervenção minha...



segunda-feira, 12 de maio de 2014

MARCHA FORÇADA - poema de Miklós Radnóti

Durante a segunda grande guerra o poeta húngaro Miklós Radnóti (1909-44) foi detido no campo de concentração de Bor, localizado na atual Sérvia. Já perto do fim da guerra, quando os nazistas tiveram que fugir, Radnóti foi enviado em marcha forçada de volta para a Hungria. Mas não chegou ao seu país. Foi executado, como outros tantos, no caminho.
Quando seu corpo foi retirado de uma vala comum e exumado encontraram no bolso de seu casaco um caderno de notas. Os textos ali escritos foram publicados, mais tarde, por sua viúva, Fanni Gyarmati (1912-2014). Este é um desses poemas.



*
MARCHA FORÇADA

Louco quem da terra morto se levanta e de novo se arrasta,
e com a dor do nômade movimenta tornozelos e joelhos,
e ainda assim se põe a caminho, como se alçado por asas,
e as valas o chamam em vão, não tem coragem de ficar,
e se você perguntar, por que não? talvez ele responda
que a mulher espera por ele e uma morte mais bonita, mais sábia.
Embora o crédulo esteja louco, porque lá sobre os lares
há muito apenas voam cinzas
a parede da casa desabou, o pé de ameixa se partiu,
e de medo é tormentosa a noite da terra natal.
Oh, se eu pudesse acreditar: que não é apenas no coração que eu levo
tudo que ainda vale a pena, e que existe uma casa à qual voltar;
se ainda existisse! e como em outros tempos na antiga varanda fresca
zumbisse a colmeia da paz, enquanto resfriava a geleia de ameixa,
e o silêncio do final de verão se banhasse ao sol nos jardins sonolentos,
em meio à folhagem frutas pendessem nuas,
e Fanni me esperaria loira diante da cerca vermelha
e lentamente escreveria sombra a lenta manhã, -
mas talvez ainda possa acontecer! A Lua está tão redonda!
Não prossiga, amigo, grite comigo! e vou me levantar!


BOR, 1944, 15 DE SETEMBRO

quarta-feira, 30 de abril de 2014

In memorian


A dor de não saber


"Quinta-feira, 23 de outubro de 1975. A Congregação, órgão máximo do Instituto de Química da USP, está reunida para uma decisão importante: o que fazer a respeito da professora Ana Rosa Kucinski, desaparecida havia 19 meses.
Em 22 de abril de 1974, Ana Rosa, de 32 anos, disse aos colegas que iria ao centro da cidade almoçar com o marido, o físico Wilson da Silva. No trabalho, Wilson contou algo semelhante: almoçaria com a mulher e depois voltaria ao escritório.
Nunca mais foram vistos. Ambos militavam no que restava da Ação Libertadora Nacional, organização armada de esquerda. Os poucos integrantes ainda vivos eram perseguidos com especial brutalidade pelo regime militar.
Confirmado o desaparecimento, a família da Ana Rosa iniciou uma cruzada. Recorreu à Organização dos Estados Americanos, ao Departamento de Estado dos EUA, levou o caso ao general Golbery, chefe da Casa Civil do governo Geisel, com intermediação do então arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns.
Pressionado, o ministro da Justiça, Armando Falcão, disse em nota oficial que Ana Rosa não estava presa. Era uma "terrorista foragida". Apesar das mentiras de Falcão, as evidências eram fortes: Ana Rosa havia sido levada pela repressão.
O reitor da USP, Orlando Marques de Paiva, monta um grupo para analisar o caso. No burocratês uspiano, uma "comissão processante", formada por um representante da consultoria jurídica da universidade, Cassio Raposo do Amaral, mais dois professores: um da própria Química, Geraldo Vicentini, e outro da Odontologia, Henrique Tastaldi, que estava se aposentando para depois ser recontratado pelo IQ.
Apesar das evidências fornecidas pela família, que apontavam para uma captura pelo aparato repressor, a comissão faz um relato frio. Prende-se às faltas de Ana Rosa, e às consequências trabalhistas. Recomenda dispensar a professora.
O parecer é encaminhado à Congregação. Quinze professores do Instituto de Química estão reunidos. Por razões até hoje desconhecidas, o assíduo presidente do colegiado, Paschoal Senise, não comparece. Walter Colli, da bioquímica, também não está.
Em votação secreta, por 13 votos a favor e dois em branco, a instância máxima do Instituto de Química da USP demite Ana Rosa Kucinski por "abandono de função".
No livro semificcional "K", o jornalista Bernardo Kucinski, irmão de Ana Rosa, especula como teria sido esse encontro. Com base na ata da reunião, e imaginando o que pensavam os envolvidos, Kucinski constrói um quadro em que, por razões diversas —convicções reacionárias, estratégia, omissão, covardia—, os votantes permitem que uma injustiça aconteça.
Mas outros pesquisadores, que analisaram recentemente o processo, têm uma visão mais nuançada. Tiram o foco da Congregação e destacam a etapa anterior, a do duro relatório da comissão processante, que teria selado o desfecho do caso.
Independente do ponto de vista, muitas perguntas sobre a Congregação jamais terão resposta.
De quem foram os dois votos em branco? E foram de protesto, ou saíram em branco por uma trivialidade qualquer? Por que o professor Senise, que nunca faltava, se ausentou?
E mais: por que o grupo, que incluía gente de esquerda, votou maciçamente para demitir uma professora que eles sabiam ter sido levada pela repressão? Foram forçados, ou votaram com a consciência? Por que não optaram por algo mais brando, como uma suspensão?
A historiadora Janice Theodoro da Silva, presidente em exercício da Comissão da Verdade da USP, esquadrinhou a papelada. E prefere não especular sobre as motivações da Congregação.
"Como a gente não sabe, eu não julgo", ela diz. "Temos de conviver com a dor de não saber."
Uma dor que os colegas de Ana Rosa na USP conhecem bem.
Em depoimento emocionado (youtu.be/VcrR1JbfH9w), a hoje professora aposentada Shirley Schreier descreve a última vez em que viu Ana Rosa. Na juventude, foram muito próximas. Depois Shirley mergulhou no trabalho e ficou sem tempo para a amiga.
Pouco antes de desaparecer, Ana foi à sala de Shirley conversar. Percebeu que ela estava ocupada, disse que viria outro dia. Jamais voltaram a se ver.
Terça-feira passada houve uma cerimônia no IQ. Na data exata dos 40 anos do desaparecimento, finalmente o instituto pediu desculpas à família de Ana Rosa Kucinski. A demissão foi revogada.
Nos jardins da instituição, uma escultura da artista Kimi Nii —uma flor metálica— agora homenageia a cientista que a ditadura assassinou. "

Álvaro Pereira Júnior, publicado em sua coluna na Folha de São Paulo.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Sobre macacos e profecias auto-realizáveis



Ele estava apaixonado. Que menina linda. Que menina legal. Tem tudo a ver com ele. O dia foi maravilhoso. O clima, perfeito. E ela também gostou, postou que teve um dia divino.

Mas tá demorando um pouco para responder as mensagens. Ele se pergunta se exagerou no entusiasmo, se ela ficou assustada... E agora, que ele disse claramente que quer vê-la novamente, ela ainda não respondeu... e já se passaram 2 dias...

Já tava quase fazendo uma besteira, mandando uma mensagem grosseira, terminando o que nem tinha começado direito.

O amigo então o chama pra sair e pegar umas meninas. O amigo está magoado depois que sua namorada de anos terminou com ele. E é seu melhor amigo. Eles saem e ele quase fica com uma menina. Tava meio tonto e ela era muito bonita... e a outra ainda sem responder se vai sair com ele ou não. Não estava mesmo a fim, estava com a outra na cabeça. Mas ela não respondeu...

E não é que quando ele volta pra casa vê a mensagem da menina marcando um encontro no domingo?

Contei pra ele a piada do macaco.

O cara dirigia por uma estradinha de terra quando o pneu do carro furou. Era noite. Ele abriu o porta-malas para pegar o macaco e lembrou-se que o tinha esquecido em casa. Desesperou-se, estava no fim do mundo, de noite, sem macaco, como iria fazer? Foi quando enxergou uma luzinha longe, olhou com cuidado e viu que era uma casinha. “Que sorte! Uma casinha aqui! Eles devem ter um carro e aí vão poder me emprestar o macaco.” E foi andando em direção a casinha. Chegando mais perto viu a garagem. “Beleza, tem carro mesmo, que sorte!” Andou mais um pouco. “É, deve ter carro, mas já tá de noite, né? E o povo na roça dorme cedo.” Andou mais. “É, e esse cara deve ter família, ia morar na roça sozinho? Tem família e tá de noite...” Andou mais um pouco.  “É... ele deve ter filhos, filhos pequenos...” Andou mais um tiquinho... “É, deve ter filha também... e tá de noite, e chega um desconhecido, do nada... “ E foi andando ...  “Eu não ia gostar nem um pouco disso, chega um desconhecido na minha casa, sei lá quem é? E pode ameaçar minha família, e pode ameaçar minha filha”... E foi andando e pensando, andando e pensando, e mais, e mais um pouco... Até que chegou a casa, bateu e pouco depois um senhor abriu a porta.
- Pois não?
- Você pega esse macaco e enfia no onde você quiser!
E o homem nem sabia se era um mico, um chipanzé...

Se ele tivesse brigado com a menina antes mesmo de perguntar pra ela o porquê da demora teria precipitado justamente o que ele mais temia.

Na sociologia existe o conceito de profecia auto-realizável.  Um banqueiro faz uma oferta pra comprar um banco. Os proprietários recusam a oferta. O banqueiro articula então um boato que o banco está mal, perto da falência. É mentira, o banco está muito bem. Mas se o boato pega, todos correm pra tirar o dinheiro e o banco quebra. Ai o banqueiro diz “Tá vendo? Não falei que o banco estava mal?” O banco estava bem. Mas esse tipo de profecia é auto-realizável. Se pega, faz a si mesmo acontecer.

Outro exemplo: Alguém tem certeza que não dá para matemática. Chegam as provas e ela não estuda matemática como estuda as outras matérias. Quando saem os resultados vai mal em matemática. E confirma: “tá vendo, não consigo aprender matemática...” Mas ela nem estudou direito.

Um terceiro e muito frequente exemplo: uma pessoa não acredita que é amável, não concebe que pode ser amada por alguém. Ao estar com alguém tem sempre a certeza ou de que será abandonada, ou que será traída, ou ambos. E que isso é só uma questão de tempo. Essa infeliz criatura, tão semelhante a todos nós em alguns momentos, inferniza tanto seus parceiros amorosos com essas certezas que acaba realmente só. E diz, então: “Tá vendo? Eu tinha certeza que ele iria me abandonar, e estava certa!

Não. Ela estava errada. Mas a profecia auto-realizável tem o poder de se fazer realizar. Ela prova que, em se tratando de psicologia, problemas falsos podem gera consequências verdadeiras. Nem sempre geram. Mas que podem, podem.

Foi muito bom o rapaz apaixonado lá de cima ter mantido a calma possível, ter esperado um pouco. Guimarães Rosa já mostrou a ligação entre o medo e a pressa no seu livro Sagarana, dizendo “Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho...” E depois, no se livro Grande Sertão: Veredas mostrou a relação entre o medo e seu anagrama, o demo. E eu mesmo completo dizendo que o medo, a pressa, o demo e ainda a saudade são da mesma turma. Quando convidamos um pra sair acaba indo todo mundo junto. E é bem difícil conviver com essa turminha.