segunda-feira, 8 de abril de 2013

A mais bela das lápides





Já escolhi a minha lápide. E, para que nenhum gaiato se antecipe registro aqui a minha escolha. Serei enterrado sob a frase: aqui jaz um manso. Não que eu já seja digno de uma lápide tão bela. Mas como espero ainda viver muitos anos, posso me aprimorar e, mais tarde, ou melhor (toc-toc-toc na madeira), bem mais tarde, ser afinal enterrado de maneira tão digna.

Tive essa iluminação ao ler o livro “Elogio da Serenidade”, de Norberto Bobbio. O título original era “Elogio da Mitezza”. Em italiano do adjetivo mitezza deriva o verbo mitigar, que significa arrefecer, atenuar, abrandar. Em português existe o verbo mitigar, mas não existe o adjetivo correspondente. Então o tradutor optou por serenidade, no lugar de mitezza. E desdenhou a melhor opção: Elogio da Mansidão.

É verdade que minha mulher estranhou a lápide “Aqui jaz um manso”. “Vão achar que você é corno manso, vão achar que eu te chifrei”. Azar, o que vão achar ou não. Já vou estar morto mesmo...

Certa vez, estava uma repórter entrevistando importante professor aposentado da UFMG. Dizia a repórter: “Estamos aqui, diante de fulano de tal, na homenagem que a universidade faz aos seus 90 anos, um homem cheio de realizações universitárias mas, acima de tudo, por todos considerados um homem sábio, alguém que soube viver de forma maravilhosa e plena. Me diga, fulano de tal, tem algum macete pra chegar na sua idade tão lúcido, bem de saúde e feliz? Tem macete a sua sabedoria?”

“Tem”, ele respondeu.

“E qual é?”

“Eu não brigo com ninguém, não discuto com ninguém.”

A reportar olha incrédula e afirma: “Ah! Mas não deve ser só isso...!”

E o professor responde de bate pronto: “Tem razão... deve ter mais coisa...”

E ocorre a rara cena de uma repórter atônita, olhando para o entrevistado, de boca aberta...

Esse professor aposentado, sim, mereceria uma lápide tão bela.

A mansidão de espírito não é ser bobo e passivo. Não é ser acomodado. Não é alienação.

A mansidão de espírito também não é nem o estado de nirvana, do budismo, nem a ataraxia, do estoicismo. Em ambos se busca o não envolvimento para se evitar o sofrimento. Mas, se por um lado não sofreremos falta de nada se não almejarmos nada, por outro não poderemos buscar ativamente o prazer, a alegria, o amor. Será se não existe uma forma mais sábia de se lidar com a frustração do que tentar evitá-la com a supressão do desejo?

A mansidão do espírito é próxima da soberania. É não cair em manipulações ou automatismos estereotipados. É sair da prisão da pressa e do medo. É acreditar no amor e na bondade.

E não ligar muito pra opinião alheia.

A mansidão é saber que posso optar por outro caminho quando o que estou tentando mostra-se inviável. Pois a realidade é ampla e inacabada  A mansidão é lutar pelo bom, pelo belo e pelo justo, sem com isso se perder de si mesmo. É ter o tempo nas próprias mãos e saber, por isso mesmo, que ele é largo e que sempre poderemos tentar de novo, se realmente valer a pena.

Enfim, ainda não estou em condições de receber tão grandiosa homenagem, como a lápide que escolhi. Espero ainda ter tempo para me aprimorar para tal. Mas, caso algo aconteça antes do meu aperfeiçoamento pessoal (de novo, toc, toc, toc), adianto já o pedido: pode colocar a lápide em cima. Se alguém achar que não mereço, não estou nem aí. Já terei morrido mesmo...

Nenhum comentário: