quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Trechos do "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa




“amigo, pra mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo”.


“Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada:  quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom.”

“A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar.”

“... que, quando um tem noção de resolver a vender a alma sua, que é porque ela já estava dada vendida, sem saber;  e a pessoa sujeita está só é certificando o regular dalgum velho trato – que já se vendeu aos poucos, faz tempo?”


“Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência;  para penar, não se carece:  bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque.  Digo ao senhor:  tudo é pacto.  Todo caminho da gente é resvaloso.  Mas, também, cair não prejudica demais – a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!”

“Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima – o que parece longe e está perto, ou o que está perto e parece longe.  Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe;  mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba.”

“O senhor tolere minhas más devassas no contar.  É ignorância.  Eu não converso com ninguém de fora, quase.  Não sei contar direito.  Aprendi um pouco foi com o compadre meu Quelemém;  mas ele quer saber tudo diverso:  quer não é o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra-coisa.  Agora neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido.”

“O senhor espere o meu contado.  Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos que o escuro é claro.”

“Digo:  o real não está na saída nem na chegada:  ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
“Ah, mas falo falso.  O senhor sente?  Desmente?  Eu desminto.  Contar é muito, muito dificultoso.  Não pelos anos que já se passaram.  Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.  O que eu falei foi exato?  Mas teria sido?  Agora, acho que nem não.  São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos, tudo miúdo recruzado.”

“O senhor sabe?  Já tenteou sofrido o ar que é saudade?  Diz-se que tem saudade de idéia e saudade de coração.”

“Comigo, as coisas não tem  hoje e ant’ontem amanhã:  é sempre.  Tormentos.  Sei que tenho culpas em aberto.  Mas quando foi que minha culpa começou?  O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá.  Mas a vida não é entendível.”

 “A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam.  Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância.  De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa.  Sucedido desgovernado.  Assim eu acho, assim é que eu conto.  O senhor é bondoso de me ouvir.  Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data.  O senhor mesmo sabe.”

“Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas.  Lenga-lenga! Não devia de.  O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho.  Mas talvez por isto mesmo.  Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito:  faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo.  Mire veja:  o que é ruim dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si.  Para isso é que o muito se fala?

“Assaz o senhor sabe:  a gente quer passar um rio a nado, e passa;  mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais em baixo, bem diverso do que em primeiro se pensou.  Viver nem não é muito perigoso?”

“Ser dono definitivo de mim, era o que eu queria, queria.”

“Mire e veja:  o mais importante e bonito, do mundo, é isto:  que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.  Afinam ou desafinam.  Verdade maior.  É o que a vida me ensinou.  Isso que me alegra, montão.”

“O senhor sabe:  há coisas de medonhas demais, tem.  Dor do corpo e dor da idéia  marcam forte, tão forte como o todo amor e raiva de ódio.”

“Viver é muito perigoso...  Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar!”

“Ah, eu estou vivido, repassado, eu me lembro das coisas antes dela acontecerem.”

“Moço:  toda saudade é uma espécie de velhice...  O amor, já de si, é algum arrependimento.”

“Jagunço é homem já meio desistido por si.”

“Confiança – o senhor sabe – não se tira das coisas feitas ou perfeitas:  ela rodeia é o quente da pessoa.”

“Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto.”

“No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam.  Melhor assim.  Pelejar por exato, dá erro contra a gente.  Não se queira. Viver é muito perigoso...”

“Sujeito muito lógico, o senhor sabe:  cega qualquer nó.  E – engraçado dizer – a  gente apreciava aquilo.  Dava uma esperança forte.”

“Eu queria decifrar as coisas que são importantes. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.  O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe.”

“Era como se eu tivesse de caçar emprestada uma sombra de um amor.”

“Cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo.”

“Despedir dá febre.”

“A amizade dele, ele me dava.  E amizade dada é amor.  Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede:  pensando por prolongar.  Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade.”

“Não por orgulho meu, mas antes por me faltar o raso de paciência, acho que sempre desgostei de criaturas que com pouco e fácil se contentam.”

“Deveras se vê que o viver da gente não é tão cerzidinho assim.”

“Coração cresce de todo lado.  Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas.  Coração mistura amores.  Tudo cabe.”

“O que os meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois d’amanhã.”

“Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente.”

“Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou.”

“... e, gostar exato das pessoas, a gente só gosta, mesmo, puro, é sem se conhecer demais socialmente.”

“Tu não acha que todo mundo é doido?  Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor?  Ou em horas em que consegue rezar?”

“A gente só sabe bem aquilo que não entende.”

“Então o mundo era muita doideira e pouca razão?”

“Tem de todas as coisas.  Vivendo se aprende;  mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas.”

“Medo de errar.  Sempre tive.  Medo de errar é que é a minha paciência.”

“Meu coração é que entende, ajuda minha idéia a requerer e traçar.”

“Todos estão loucos, neste mundo?  Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.  Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente – o que produz os ventos.”

“Eu queria ir pra ele, para abraço, mas minhas coragens não deram.”

“Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas;  só nos onde os olhos.”

“O que era isso, que a desordem da vida podia sempre mais do que a gente?”

“Amigo, pra mim, é só isto:  é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado.  O de que um tira prazer de estar próximo.  Só isto, quase;  e os todos sacrifícios.  Ou – amigo –  é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é que é.”

“Eu sei:  quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.”

“O querer-bem da gente se despedindo feito um riso e soluço, nesse meio de vida.”

“Viver é um descuido prosseguido.”

“O diabo não há!  É o que eu digo, se for...  Existe é homem humano.  Travessia.”

“De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava.  Não possuía os prazos.  Vivi puxando difícil de difícel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp`ro, não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede.  E me inventei neste gosto, de especular idéia.”
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De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes.... O diabo na rua, no meio do redemunho...





“Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...  Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega:  todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...  De sorte que carece de se escolher:  ou a gente se tece de viver no safado comum, ou cuida só de religião só.  Eu podia ser:  padre sacerdote, se não chefe de jagunços;  para outras coisas não fui parido.  Mas minha velhice já principiou, errei de toda conta.”

"Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!" (João Guimarães Rosa)


“O que mais penso, texto e explico :todo-o-mundo é louco.  O senhor, eu, nós, as pessoas todas.  Por isso é que se carece principalmente de religião:  para se desendoidecer, desdoidar.  Reza é que sara da loucura.  No geral.  Isso é que é a salvação-da-alma...  Muita religião, seu moço!  Eu cá, não perco ocasião de religião.  Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...  Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue.  Rezo cristão, católico, embrenho a certo;  e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque.  Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista:  a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.  Tudo me quieta, me suspende.  Qualquer sombrinha me refresca.  Mas é só muito provisório.”
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“Toda mãe vive de boa, mas cada uma cumpre sua paga prenda singular, que é a dela e dela, diversa bondade.  E eu nunca tinha pensado nessa ordem.  Para mim, minha mãe era a minha mãe, essas coisas.  Agora, eu achava.  A bondade especial de minha mãe tinha sido a de amor constando com a justiça, que eu menino precisava.  E a de, mesmo no punir meus demaseios, querer-bem às minhas alegrias.  A lembrança dela me fantasiou, fraseou – só face dum momento – feito grandeza cantável, feito entre madrugar e manhecer.”

“Como não ter Deus?   Com Deus existindo, tudo dá esperança:  sempre um milagre é possível, o mundo se resolve.  Mas, se não tem Deus,  há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra.  É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos.  Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.  Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma.”

“Medo maior que se tem, é de vir canoando num ribeirãozinho, e dar, sem
, no corpo dum rio grande.  Até pelo mudar.”

“Ser ruim, sempre, às vezes é custoso, carece de perversos exercícios de experiência.”

“O senhor sabe?: não acerto no contar, porque estou remexendo o vivido longe alto, com pouco caroço, querendo esquentar , demear, de feito, meu coração, naquelas lembranças.  Ou quero enfiar a idéia, achar o rumozinho forte das coisas, caminho do que houve e do que não houve.  Às vezes não é fácil.  Fé que não é.”

“Hê, de medo, coração bate solto no peito;  mas de alegria ele bate inteiro e duro, que até dói, rompe para diante na parede.”

“Toda moça é mansa, é branca e delicada.”

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

“Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“Despedir dá febre.”

“A amizade dele, ele me dava.  E amizade dada é amor.  Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede:  pensando por prolongar.  Como toda alegria, no mesmo do momento, abre saudade.”

“Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso – o que queria  e o que não queria, estória sem final.  O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.  O que ela quer da gente é coragem.  O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem.  Será?  Era o que eu às vezes achava.  Ao clarear do dia.”

“Sertão, - se diz - , o senhor querendo procurar, nunca não encontra.  De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem.”

“O senhor entende, o que conto assim é resumo;  pois, no estado do viver, as coisas vão enqueridas com muita astúcia:  um dia é todo para a esperança, o seguinte para a desconsolação.”

“O sertão é bom.  Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado...  O sertão é confusão em grande demasiado sossego...”

“Aqui digo:  que se teme por amor;  mas que, por amor, também, é que a coragem se faz.”

“Pois não é?  Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte.”

“Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor:  como em quieto as coisas chamam a gente.”

“Minha Senhora Dona:  um menino nasceu – o mundo tornou a começar!...”

“Sertão:  quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros:  eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé,  com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...”

“... a colheita é comum,  mas o capinar é sozinho.”

“Viver – não é? – é muito perigoso.  Porque ainda não se sabe.  Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.”

Um comentário:

Unknown disse...

Para mim Guimarães Rosa beira a perfeição!!!!!!!!!!