domingo, 2 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade - Carta


Carta

Há muito tempo, sim, que não lhe escrevo.
ficaram velhas todas as notícias.
eu mesmo envelheci: olha em relevo,
estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol - posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

Carlos Drummond de Andrade - Lição de coisas

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