terça-feira, 15 de maio de 2012

ANTI-INTRACEPÇÃO E RENEGAÇÃO



     Para falarmos de ANTI-INTRACEPÇÃO e de renegação é necessário que antes façamos a diferenciação entre estereotipia e preconceito, e suas relações com o problema do estigma.
    
     A  palavra estereotipia vem do francês stére, derivado do grego stereós ( sólido, firme ). Diz respeito a técnicas de impressão, onde se converte em formas sólidas (clichê) as páginas que primeiramente foram compostas em caracteres móveis. Ou seja, remete a uma transformação do que era móvel em uma forma compacta, fixa. Estereotipar tem nesse contexto o significado de tornar fixo, inalterável. No contexto da psicopatologia a estereotipia seria uma repetição automática e frequente de atitudes, gestos ou palavras, sendo comummente encontrada nos esquizofrênicos, especialmente nos catatônicos, como uma "perseveração extravagante e incompreensível"(Alonso  Fernandes).

     A palavra preconceito, no dicionário etimológico, significa um pensamento, ideia ou opinião prévios, algo como um conceito formado antecipadamente, sem que se tenha um fundamento, um juízo prévio a respeito de algum aspecto da realidade antes que se conheça adequadamente este aspecto. Num contexto social poderíamos dizer do preconceito como sendo uma atitude de hostilidade frente a um grupo ou a uma pessoa enquanto membro deste grupo, atitude esta apoiada num juízo prévio que carece de fundamento. Uma "racionalização de uma atitude irracional"(Jahoda).

     A relação entre estes dois conceitos é delicada. Ambos são modos de não pensar. O preconceito frequentemente se apoia no pensar estereotipado, e este se caracteriza por um maior grau de rigidez. No preconceito os fatos podem não estar ao meu alcance. Uma vez que deles eu dispusesse o preconceito se alteraria. Na estereotipia os fatos não interessam, mesmo quando os tenho à mão. Usando uma metáfora, a estereotipia seria como a cama de tortura de Procusto, na qual se coloca uma pessoa. O que "sobrar", corta-se, o que faltar estica-se. Ou seja, o aspecto da realidade que não se encaixar no que já tenho preconcebido eu excluo, não considero. Quando na estereotipia - reino das categorias rígidas e inflexíveis que não coincidem com a realidade - não estamos lidando com ilusões, nem com enganos (que são próprios do estado nascente). Estamos no reino do delírio, onde a característica principal é ser inalterável frente aos fatos.

     Passemos agora ao problema do estigma.

     Na Grécia, onde surgiu, o termo estigma foi utilizado para designar os sinais ou marcas corporais com os quais se procurava evidenciar algo de mau sobre o status moral de quem os apresentava. Essas cicatrizes indicavam que o portador era escravo, criminoso ou traidor. Se tratava de uma pessoa marcada, ritualmente poluída(manchar, sujar, corromper, macular, profanar), que deveria ser evitada. Na era cristã o estigma teve dois sentidos: 1) Sinais corporais da graça divina, como no caso das chagas (Chaga no latim vem associado a praga, golpe, ferida,                          desgraça, flagelo, calamidade) com a forma de flores em erupção sobre a pele; 2) Sinais médicos, como sinais corporais de distúrbios físicos.

     Atualmente o termo está mais próximo de seu sentido original, de marca ou impressão indicativa de uma degenerescência (mal, loucura, doença). Porém é mais aplicado à desgraça do que à sua evidência corporal. Ou seja, alguma característica, algum atributo da pessoa que tem um efeito de descrédito, inabilitando-a à aceitação social plena.

     Segundo Goffman, esse atributo depreciativo não é depreciativo por si só, mas num determinado contexto relacional. Além disso, nem todos os atributos indesejáveis estão em questão mas somente os que são incongruentes com o estereótipo que criamos para um determinado tipo de indivíduo.

     Considerando que os modelos identificatórios oferecidos pela cultura são, a maior parte das vezes, baseados em modos estereotipados de se conceber a pessoa, estamos como que condenados a viver num mundo de estigmas. A qualquer momento pode se revelar uma característica incompatível com o modelo estereotipado(E isto é inevitável, posto que o modelo estereotipado se caracteriza por uma extrema rigidez, uma missão impossível de se realizar, incompatível com as possibilidades humanas) e esta característica "revelaria" toda a miséria que a pessoa julga possuir, e que a incapacitaria para uma relação social plena. Podemos dizer  que   uma  vez transitando nos modelos estereotipados do dever ser inevitavelmente teremos, ao nível da vivência, a permanente sensação de uma chaga prestes a se revelar e transformar nossa vida numa catástrofe. Começamos então nossa carreira de colecionadores de segredos: se o que julgamos ser nosso estigma é evidente à primeira vista nos especializamos em manipular tensão; se não é evidente, nos especializamos em manipular informações.
          
     Para tentar escamotear o que consideramos a nossa miséria, para tentar escapar do estigma que se baseia na estereotipia, podemos utilizar de vários ardis. Neste trabalho pretendo falar de quatro deles: a projeção, a fusão, o deslocamento e a renegação.

     A função primordial da projeção é tentar controlar o mal. E a maneira pela qual ela tenta fazer isto é colocando o mal no outro. O procedimento é semelhante ao ritual de se sacrificar um animal - o bode expiatório -, fazendo deste o portador de todo o mal da tribo. Pega-se o mal coletivo e deposita-se no animal que é abandonado no deserto, onde morre, expiando a culpa de todos. A diferença deste ritual para o mecanismo da projeção é que no ritual ao menos sabia-se que o mal, originalmente, era da tribo. Na projeção não percebo que o mal inicialmente era meu, só o percebo no outro.

     Na fusão, ensimesmado em meu próprio mundo, misturo-me com o outro impedindo qualquer diferenciação. A alteridade, neste caso, some, como que fagocitada. Uma ameba indiferenciada, viro o que já sei e penso. Fico fundido, confundido com o(no) outro que, aliás, não mais existe.

     O deslocamento é o ardil mais difícil de ser percebido. Este mecanismo tem função defensiva evidente. Ocorre como um deslize: quero atingir a determinado alvo, mas não posso, ainda não tenho força suficiente, então atinjo indiretamente. É a famosa espingarda de matar veado na curva. Queria falar mal dos brancos, mas meu chefe é branco, então falo mal dos judeus. Boto a fumaça num lugar, e o fogo no outro. Neste ardil, apaixonado por imagens, fico vulnerável às aparências, preso nas primeiras impressões. No futebol poderíamos imaginar a metáfora daquele que desloca para receber a bola (responsivo) em contraposição àquele que desloca para fugir dela.

     Por último a renegação. Como foi dito anteriormente, frente as nossas mentalidades estereotipada é inevitável que nos coloquemos como estigmatizáveis. Neste contexto tentamos renegar as vivências de miséria que temos. Há aqui um problema de auto-repúdio, e de autoestima, uma desconfiança a respeito de si mesmo. A pessoa não pode recuperar a própria experiência, e vive por isto mesmo num estado real de miséria. Não pode voltar para si mesmo, ter-se e saber-se, apropriar-se de si mesmo, pois tem a certeza de que vai encontrar a miséria comprovada e definitiva. Assim mando o que julgo ser a minha miséria para "outro país", mas quem acaba renegado/desterrado sou eu mesmo (É terreno fértil para a despersonalização). Considero a renegação como a mais ampla das categorias até então citadas. Ela envolve as categorias anteriores. Na projeção, na fusão e no deslocamento evito a realidade pois quero evitar a imagem deformada que tenho de mim mesmo. E deste modo estou no âmbito da renegação. Considero a ANTI-INTRACEPÇÃO como sendo este impedimento de recuperar a própria experiência. Trata-se de uma deformação da consciência por uma estereotipia nos modos de se conceber.

29/5/92 

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