sexta-feira, 13 de setembro de 2013

RATOS E CRIANÇAS

Relato de uma experiência absolutamente impressionante, demonstrando o quanto os pré-juízos e as esperanças dos professores podem influenciar na aprendizagem de seus alunos.



Mariella Righini
Os professores têm, sem dúvida, uma influência direta sobre os alunos, a partir de sua personalidade, sua atitude, da relação que mantêm com os alunos: seu modo de interpretar as normas da instituição. Esta ação pode, aliás, exercer-se sem que o professor perceba.

O professor norte-americano de psicologia Robert Rosenthal teve um dia uma ideia, aparentemente ingênua, de convocar doze alunos e distribuir a cada um deles cinco ratinhos cinzentos, dando-lhes algumas semanas para que os ensinassem a se orientar num labirinto.
Detalhe importante, entretanto: ele soprou no ouvido de seis alunos que seus ratinhos tinham sido selecionados porque tinham um senso de orientação particularmente desenvolvido. Aos outros seis foi dito que, por razões genéticas, não se poderia esperar nada das cobaias sob seus cuidados.
Essas diferenças existiam, na verdade, na cabeça dos estudantes. Os sessenta ratinhos eram rigorosamente idênticos. Decorrido o tempo regulamentar de treinamento, Robert Rosenthal percebeu que os superestimados haviam atingido resultados surpreendentes, enquanto os subestimados não tinham conseguido praticamente sair ao ponto de partida.
A partir deste resultado, Rosenthal desejou fazer a mesma experiência num laboratório de outro tipo: a escola1
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SORTEIO
Em maio de 1964, Robert Rosenthal e membros de sua equipe chegaram a uma escola elementar do sul de São Francisco. Bairro pobre. Salários baixos. Muitos mexicanos e porto-riquenhos. Em suma, crianças pobres, de meio social “desfavorecido” e das quais se esperam geralmente resultados escolares insuficientes.
Cartão de visitas dos intrusos: uma grande pesquisa, desenvolvida em Harvard e financiada pela National Science Foundation, sobre a maturação tardia dos alunos. Impressionados com a importância da coisa, os professores abriram as portas de suas classes. Eles não suspeitavam dos verdadeiros propósitos da pesquisa, que não visava a estudar os alunos mas sim os próprios professores.
A contribuição que lhes é pedida é simplesmente fazer com os alunos, no fim do ano escolar, um teste de “tipo novo”, para reconhecimento daqueles que poderiam dar um salto qualitativo durante o próximo ano escolar.
De fato, tudo era fictício. O teste ‑ um teste-padrão de medida de QI ‑ apenas um pretexto; quanto aos casos ditos “interessantes”, foram evidentemente escolhidos ao acaso, numa proporção de 20% em cada turma, e seus nomes foram comunicados de maneira intencionalmente discreta aos professores: Any way... no caso de você estar interessado pelos teste que estamos fazendo para Harvard.
Depois de condicionar os professores a acreditar que havia no grupo alunos com maior potencial de êxito, bastava aos pesquisadores esperar pelos resultados. Um novo teste seria aplicado nos alunos quatro meses após o inicio das aulas, outro no fim do ano escolar e um último no ano seguinte.
Os resultados, acima de todas as expectativas, deixaram Robert Rosenthal de boca aberta. Os alunos designados artificialmente como os que deveriam dar os melhores resultados progrediram muito mais rapidamente do que os outros! Dois casos entre algumas dezenas. José, um mexicanozinho, tinha um QI de 61 pontos, antes de seus professores acreditarem que ele era um prodígio.
Um ano mais tarde seu QI atingia 106. “Aluno retardado” (PC), um ano mais tarde ele se tornava, por simples acaso, um “aluno bem dotado”. Mesma surpresa com Maria, uma outra mexicanazinha em que se observou uma elevação de QI de 81 para 128. Aceitando o convite para descrever o comportamento desses casos “interessantes”, os professores insistiram na “alegria”, na “curiosidade”, na “originalidade” e na “adaptabilidade” dessas crianças.
PONTOS OBSCUROS
No entanto, a progressão destes alunos que haviam sido transformados em prodígios, não foi uniforme ao longo da pesquisa. Durante o primeiro ano, a evolução maior foi observada nos alunos menores, no segundo ano nos alunos mais velhos. Por que esse tipo de fenômeno? Os menores, fortemente influenciados pelo professor, testemunha de sua arrancada, diminuem sua progressão quando passam para outro professor; já os mais velhos, inicialmente menos influenciáveis, são em contrapartida mais aptos a manter por si próprios seus melhores resultados sem o apoio do professor.
Outro ponto revelador da pesquisa: a sorte dos alunos esquecidos, cujos nomes não foram “sugeridos” aos professores. Seus resultados escolares, como foi visto, são nitidamente menos brilhantes que os de seus colegas. Mas há coisas mais graves: quando um destes alunos se distinguia do lote, era automaticamente rebaixado pelo professor e mantido ao nível ao qual “deveria” pertencer. Pior: quanto mais progresso fazia, mais baixava sua classificação. Não sendo “esperado”, seus êxitos eram julgados indesejáveis. Perturbavam as previsões do professor.
A pesquisa provou, portanto, que, como para os ratos, o preconceito artificial do educador agiu de modo determinante sobre o comportamento do educando. Ou melhor, os bons e os maus alunos são inteiramente fabricados pelos professores. Os membros da equipe do professor Rosenthal chegaram a acreditar, por um instante, que os alunos que tiveram seus nomes “selecionados” teriam sido beneficiados por conversas e discussões mais ricas com seus professores, e que esse fato explicaria seus progressos. Mas tiveram que abandonar esta hipótese. O exame dos diferentes testes sucessivos mostrou, com efeito, que não tinha sido a inteligência verbal que havia progredido nessas crianças, mas a capacidade de raciocínio. Havia bastado uma previsão de êxito para transformar alunos incapazes em alunos brilhantes.
Em suma, a condição essencial para que um aluno, para que uma classe tenha bons resultados é que o professor tenha confiança neles. Esta seria a reforma mais econômica da escola com que se poderia sonhar. Mas também a mais difícil de ser aplicada.

1ROSENTHAL, Robert; JACOBSON, Lenore. Pygmalion in the Classroom.New York, Holt, Rinehart & Winston, 1968.

Jornal da Educação - ANO 4 – Nº. 15. MARÇO/ABRIL DE 1986 RATOS E CRIANÇAS. UMA 
EXPERIÊNCIA REVELADORA Mariella Righini 

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