quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Contra-fogo

Estávamos eu e dois amigos retornando de uma festa, no início da madrugada, a pé, atravessando uma pracinha do Luxemburgo, quando um telefone do ponto de táxi tocou. Naquele tempo – eu devia ter uns 17 anos – os telefones dos pontos de táxi eram dentro de orelhões azuis. Juninho, que tinha bebido um pouco mais, parou e foi atender. Henrique, que tinha bebido menos, continuou andando. Eu, que não tinha bebido nada, parei para esperar Juninho e, ao me virar, vi um senhor com um sobretudo preto apressar seu passo em nossa direção. Disse então ao Juninho:

- Não atende não, que acho que aquele homem vai atender...

Ele respondeu:

- Só vou dizer que não tem ninguém no ponto...

E encostou a mão no telefone. De imediato o senhor retirou um cassetete de dentro do sobretudo e voou pra cima de nós. Juninho, de costas, não percebeu. Eu me coloquei entre ele e o senhor e comecei a tentar dizer algo como “Que isso moço? Ele só tá avisando que não tem ninguém no....” Não terminei a primeira frase. Ele mirou na minha cabeça. No único reflexo de defesa consegui me esquivar um pouco e ele acertou meu pescoço. Caí. Ele deu duas nas costas de Juninho, que também caiu. Henrique corria, distante. Eu já estava me levantando pra agarrar o homem quando um pensamento me veio: “Ele tá armado! Não seria doido... quando atacou éramos três jovens contra um senhor...” Praticamente puxei Juninho pelos cabelos e o empurrei aos gritos:

- Corre!! Corre!!

Minha sorte é que Juninho não estava sóbrio. Ele era muito explosivo, já tinha se envolvido em outras brigas mais sérias. Mas, na condição em que estava, nem entendeu direito o que aconteceu. E correu comigo soltando alguns palavrões.

E eu, já tendo corrido uns poucos passos, me virei para trás e vi o senhor mirar o revolver em nossa direção:

- Aqui procês, seus filhos-da-puta!

E deu vários tiros.

Ele não atirou pra cima. Mirou em nós. Errou.  

Encontramos Henrique alguns quarteirões adiante. Ele praticamente nada viu. Nem Juninho, que não entendeu muita coisa. Mas eu vi. E não conseguia parar de chorar.

Ao chegar a casa de meu tio, onde iríamos dormir, ele perguntou se eu queria ir ao instituto médico legal, fazer um exame, prestar uma queixa. Eu só chorava, não queria fazer nada.

No outro dia, já em Ouro Preto, tive medo de fazer novamente o que costumeiramente fazia quando algo me entristecia demais: esquecer. Mal me lembro do meu pai, morto quando eu tinha 10 anos. Ciente deste meu mecanismo de defesa pensei que tinha que aprender algo com o que me aconteceu, que não queria esquecer. Fui ao atelier e fiz um desenho daquilo tudo. Devo ter gasto 1 ou 2 minutos.

No outro dia, quando acordei, fui ver o desenho, querendo me lembrar de como ficou. Mas ele tinha sumido. Aí me lembrei que era o dia da terapia de minha mãe e que provavelmente o desenho seria o tema do grupo.

Eis o desenho:



Na grande maioria dos casos de risco de conflito tentar comunicar é o caminho mais adequado. Mesmo quando a comunicação encontra-se obstruída. Em textos anteriores falei sobre a comunicação assertiva ou surpreendente, justamente a técnica mais adequada para reabrir um processo dialogal obstruído. Mas em algumas situações não tem conversa possível. Diante da violência, diante da sabotagem, diante de pessoas que querem mesmo é destruir qualquer das possibilidades, tentar comunicar é no mínimo uma inocência.

No desenho o atirador não tem boca. Só depois que desenhei é que percebi isso. Com ele não tinha conversa, não tinha tentativas de explicação, não adianta mostrar que sou bonzinho, que não to fazendo nada demais... isso é inocência.

Fiquei profundamente abalado ao perceber que me expus, praticamente sem defesa, tentando conversar, a alguém que em nenhum momento teve o mais leve sinal de hesitação. Ele ia arregaçar, estraçalhar, matar. Eu vi o seu rosto, eu vi sua expressão. Eu sabia disso! Tentar conversa? Como?

Fiquei feliz ao pensar que, no instante que eu ia partir pra briga, antecipei que o agressor estava armado. Foi quando voltei a pensar, verdadeiramente.

Diante de certas situações não tem conversa, não tem negociação, não faz sentido nenhum tentar comunicar. Nessas situações é como se estivéssemos em um incêndio florestal incontrolável e fossemos obrigados a usar a técnica do contra-fogo. Nestes casos vai-se pela mata na direção contraria a linha de fogo até um local onde se possa iniciar outro incêndio, mais controlável. Controla-se este novo foco para que não prossiga na direção errada, mas que retorne, queimando a mata que existe entre os dois focos. Quando os fogos se encontram extinguem-se, pois nada há em volta para ser queimado.

Esse exemplo indica que nos momentos de violência ou se foge ou se enfrenta. E enfrentar pode ser de diversos modos, e é até indicado que seja sem violência de nossa parte. Mas não se pode bancar o inocente nessas situações. Senão acabamos ressentidos, negando nossos valores mais fundamentais, duvidando da bondade e do amor. E igualizados ao violentador no desejo de vingança.


Guardo hoje esse desenho com muito carinho.



Um comentário:

Walter Paiva do Paço Junior disse...

Me lembro de quanto fiquei indignado, realmente não percebi a gravidade da situação. Ainda bem, pois com certeza teria encarado se estivesse lúcido.
Triste não poder argumentar, condição de alguns seres humanos irracionais.
Bj pra vc Meu amigo. Salvou minha vida.
Te amo.