quarta-feira, 24 de junho de 2015

A fresta



A briga começou de novo. Quando isso acontece é quase impossível parar. É sempre assim. Por qualquer coisa - na maior parte das vezes por um entendimento equivocado de algo que foi dito - as ofensas e grosserias se iniciam e contê-las é tarefa quase impossível. Sabe-se o final:  a exaustão  vence Eduarda, que se entristece terrivelmente. E  João permanece irritadíssimo e seguro de que tem razão, ainda por dias ou  semanas, nas quais o casal mal trocará palavra. Isso se não voltar a brigar de novo.



Brincadeira, né? Achar que ter ou não ter razão presta pra alguma coisa. René Descartes resolveu esse imbróglio já a uns 500 atrás, mas parece que ninguém contou pra gente. Inicia seu “Discurso Sobre o Método”, um dos livros mais importantes da história da filosofia, com o parágrafo: 

"O bom senso (ou a razão, preferem alguns...) é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm.”

É um bom texto para se iniciar uma psicoterapia de casal. Casal que procura tratamento normalmente já chega brigando. Um acusa o outro com uma facilidade impressionante. Quando a coisa parece fora de controle, leio o parágrafo acima. E digo que, isso posto, todos os presentes à entrevista podem considerar que têm razão a priori. O marido, a esposa, o namorado, a namorada, e até o terapeuta presente na sessão, têm razão. E que isso não será discutido na terapia. Pois nunca se viu ninguém rezar para deus tirar seu excesso de razão:

- Oh, senhor, tira um pouco da minha razão, sempre sou eu que a tenho...

A partir desse ponto, sugiro que cada qual pense em três características próprias que gostaria de mudar para facilitar o relacionamento. E não nos problemas que o outro tem, porque ver no outro o que ele tem de errado é fácil. O complicado é cada qual ver a parte que lhe cabe. Ou, como diria Guimarães Rosa:

"Se o tolo admite, seja nem que um instante, que é nele mesmo que está o que não o deixa entender, já começou a melhorar em argúcia."

Brigar para ter razão é brigar pelo trono vazio das pretensões.  Sentar nesse trono não leva a lugar algum. O máximo que conseguimos é colher um deserto.



A esposa estava bem alterada. Quase gritando elencava muitos motivos para sua raiva, desespero e frustração. Alguns desses bem que se adequavam aos problemas que o casal precisaria resolver. Mas o tom alto com o qual falava e, principalmente, a dureza dos argumentos que usava, faziam com que o marido emudecesse. Sentia que nada do que dissesse resolveria alguma coisa. Pelo contrário, pioraria. Sentia raiva, muita. Sentia também dor e tristeza. Pensava em como se separar com meninos tão pequenos, se desesperava ao pensar no sofrimento deles. Mas, para piorar, sabia que eles já deviam estar sofrendo com esse clima malsão em casa. E foi assim, quando o marido já alcançara o auge da desesperança, que a esposa colocou certa frase no meio de tantos impropérios:

- Fulano, eu gosto muito de você, mas...

E continuo falando no mesmo tom e com o mesmo tipo de argumento que vinha usando antes. Mas algo já acontecera. O marido estancara naquela frase.

-Mas, ela ainda gosta de mim?

Agora ele conseguia escutar alguma coisa e entender, ao menos em parte, a solidão da esposa em seu desespero.



A ciência da convivência é sutil e cheia de reentrâncias.

Os objetos coexistem. Os animais, pelo menos em sua esmagadora maioria, coexistem. Seres humanos convivem. Mais do que isto: seres humanos precisam conviver para se tornarem humanos. E conviver é diferente de coexistir. Em primeiro lugar na convivência - quando ela de fato é convivência - as pessoas envolvidas interferem, verdadeiramente, uma na outra. Modificam-se mutuamente. Após o encontro não são mais as mesmas. Em segundo lugar, na convivência não é preciso que as pessoas envolvidas concordem uma com a outra. Conviver é enxergar tudo, as concordâncias e as discordâncias, as semelhanças e as diferenças, as aproximações e os distanciamentos. É não buscar a homogeneidade nem a unanimidade. E não ter pressa diante do encontro. 

O marido acima já estava trancando com sete chaves a porta da convivência quando escutou "Eu gosto muito de você, mas...”. E foi suficiente para que ele destrancasse a porta e a deixasse aberta. Foi como se a esposa tivesse colocado o pé na porta que estava se fechando, permitindo assim alguma abertura, alguma brisa passando por essa fresta.

Já foi dito pelo filósofo Julian Marias que não se pode ser verdadeiramente inteligente sem alguma dose de bondade. E esse autor parece associar bondade a saber esperar, não fechar o sentido das coisas tão rapidamente, afeiçoar-se à realidade deixando, por isso mesmo, que ela se manifeste por inteiro e de distintos pontos de vista antes de tentar classificá-la em algum sentindo único. E que, para que isso aconteça, não podemos ter pressa. Assim, sem alguma bondade dá até para se ser rápido, mas não verdadeiramente inteligente. 

Dessa forma teríamos de optar, a cada dia, se seremos mais abertos ou mais fechados, diante da vida. Quando mais fechados ficamos mais defensivos, vivemos como se a realidade fosse algo intrinsecamente ameaçador. Assumimos então uma posição beligerante, de conflito e desconfiança frente ao mundo. E ficamos mais miseráveis, pois desprovidos da riqueza que a diversidade que a vida pode nos oferecer. 

Podemos porém optar pela abertura diante da vida. Conseguiríamos assim mais flexibilidade. E ficaríamos mais ricos, receptivos que estaríamos à diversidade das pessoas e do mundo. Aprenderíamos mais sendo receptivos à realidade e à experiência das outras pessoas. Um bom indício que estaríamos com maior abertura é a nossa postura diante erro, do engano ou da percepção de que algo nos havia escapado. Quando abertos à vida sentimos gratidão diante da percepção de que estávamos equivocados. Sentimos alegria quando admitimos que havíamos nos enganado. Gratidão e alegria justo porque agora nos aproximamos da realidade, podemos lidar com ela com mais clareza, podemos vê-la melhor.


As brigas entre Eduarda e João chegaram ao nível do insuportável, Eduarda já pensava em como fazer para separar-se. João já deixara claro que não abriria mão do filho. E eram de cidades distantes, o que dificultaria bastante a separação. Eduarda desabafa com um amigo de João, em busca de conselho. Ao saber, João indigna-se, sente-se exposto. É bem verdade que quem mais explode, quem mais vê intenções hostis em qualquer afirmação, quem mais se mostra impermeável a qualquer abordagem, é ele. Ainda assim vai conversar com o amigo, na expectativa de provar alguma coisa, de mostrar como são justificadas suas atitudes. O amigo lhe surpreende:

- João, Eduarda te ama demais...

(A fresta se abre na porta, dá pra sentir a brisa entrando...). 

Algumas horas depois, ainda sem saber da conversa, Eduarda tenta uma nova aproximação. Liga e pergunta se pode buscá-lo no trabalho com o filho, nesta tarde de sol. Moram na praia, poderiam distrair um pouco o menino. Ele topa. O encontro é bom, ela toma sol, ele nada com o filho pequeno. Voltam pra casa em outro clima. Quando chegam Eduarda percebe, aterrorizada, que esquecera a porta de casa aberta. Isso já havia acontecido antes. João sempre explodia, achava um abusurdo esse descuido. Ele vê a porta escancarada. Olha pra ela. E diz:

- Estava com saudades, né?



Finalizando, lembrei-me de um pequeno poema de meu pai, Nello Nuno:


Atrás de uma porta aberta
há outra porta
aberta.
Atrás de uma porta fechada
há outra porta
e outra porta
e outra porta
fechadas.




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